O desabafo do fundador da Petz sobre a discussão do governo de reduzir a ‘taxa das blusinhas’

O desabafo do fundador da Petz sobre a discussão do governo de reduzir a ‘taxa das blusinhas’

A gente não faz lobby nenhum por proteção. O varejo só não quer ter a proteção às avessas, a proteção de quem está do lado de fora.

Em meio ao crescimento das discussões no governo sobre reduzir ou mesmo zerar o imposto de importação para produtos de até US$ 50, o fundador da Petz e conselheiro do Instituto de Desenvolvimento do Varejo (IDV), Sergio Zimerman, questiona duramente a postura do Palácio do Planalto no tema.

Em entrevista ao GLOBO, ele diz que a chamada “taxa das blusinhas”, no nível atual, sequer equilibraria as condições de competitividade com os produtos importados em termos tributários e uma redução só pioraria o quadro. Apesar de defender a manutenção da taxa, o presidente do conselho do Grupo Petz Cobasi tenta inverter a perspectiva, dizendo que o problema é que o varejo brasileiro tem uma carga tributária da ordem de 50%, entre tributos federais e estaduais, e o governo não discute reduzir essa tributação para quem produz no país.

Confira no Facebook: Sergio Zimerman, CEO da Petz, associada do IDV, criticou nas redes sociais o possível fim da chamada “taxa das blusinhas”.

— O que o Brasil tem feito é absolutamente ímpar quando você pensa num cenário globalizado. É a desproteção de quem está do lado de dentro. Isso, de uma maneira absolutamente mentirosa, equivocada, autoridades do governo têm vindo a público para dizer que o varejo pressiona, faz lobby por proteção. Não, a gente não faz lobby nenhum por proteção. O varejo só não quer ter a proteção às avessas, a proteção de quem está do lado de fora. O que a gente fica indignado é que, se tem proteção no mundo, a proteção é sempre para quem está do lado de dentro dos países. E o Brasil consegue proteger quem está do lado de fora. Isso parece não fazer sentido algum — afirmou Zimerman, citando nomes como o do ministro Guilherme Boulos, da secretaria-geral da presidência.

O executivo vai além e critica todo o desenho regulatório e fiscalizatório atual que, em sua visão, também favoreceria a compra de bens nas “plataformas chinesas”. Segundo ele, não seriam cobradas as mesmas exigências de qualidade e normas técnicas dos produtos fabricados localmente ou mesmo importados pelas empresas instaladas no Brasil para serem revendidas no país. Órgãos como Inmetro, Anvisa e Procon, para o empresário, precisariam justificar uma suposta leniência com as importações nas plataformas.

— Os órgãos precisam explicar por que o Brasil está absolutamente deixando qualquer produto entrar, entrar qualquer coisa sem nenhuma regulação do Inmetro, da vigilância Sanitária. Vende-se produtos proibidos, que não tem a qualificação adequada — afirma. — O PROCON precisa explicar por que o consumidor deixa de ser consumidor quando compra uma coisa do estrangeiro. E, veja só que interessante, se a minha empresa importar um produto e eu vender para o consumidor brasileiro, pela legislação, automaticamente eu sou o responsável. Não interessa quem produziu lá fora. Pela legislação brasileira, se o produto fizer mal, intoxicar, eu sou o responsável. Não tem absolutamente nenhuma regra para as plataformas. Não existe nenhuma responsabilização —salienta.

Zimerman acrescenta que chegou a colocar isso diretamente para o presidente Lula em uma reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) da Presidência da República, da qual foi membro até meados do ano passado.

— Questionei: “Vamos esperar uma criança morrer para fazer alguma coisa?” Ele ouviu, não aconteceu nada — contou.

Apesar de o Remessa Conforme ter colocado um freio na escalada de importações por meio de plataformas, Zimerman critica o fato de que o programa foi criado com a alíquota do imposto de importação zerada. Ele lembra que a isenção de até US$ 50 era apenas para operações entre pessoas físicas, sem caráter comercial, mas ao longo do tempo passou a ser uma estratégia comercial que se aproveitava da brecha para sonegação e que vinha corroendo a produção nacional.

O empresário também demonstra bastante descontentamento com a discrepância significativa nos dados das operações de importação. Ele ressalta que, enquanto a Receita Federal registra R$ 15 bilhões em “transações cross-border”, o Banco Central indica R$ 50 bilhões em remessas.

— Eu estou dizendo aqui de uma diferença de três vezes o número do que estaria entrando no Brasil —, afirma, apontando que isso tem “fortíssimos indícios de sonegação” e criticando uma suposta “inação” do governo no assunto.

Zimerman diz que o tema virou uma pauta “eleitoreira”, tanto da parte do governo como de setores da oposição, como deputado Kim Kataguiri, que tem proposta para zerar a taxa.

— Eu adoraria que a pessoa conseguisse chegar a público e falar: “eu acho que quem está na China não tem que pagar por isso, por isso, por aquilo, e quem está no Brasil tem que pagar por isso, por isso, por aquilo, exatamente para o mesmo produto” — criticou.

O tema da taxa das blusinhas segue sem uma posição final do governo, que vive um embate interno. Mas a balança está pesando pela revogação ou pelo menos alguma redução parcial, que seria um “meio termo” entre a posição da ala política e a ala que está preocupada com os impactos no varejo local.

O Globo, 28/4/2026
Imagem: Divulgação/Petz

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