NRF 2026: A quebra de regras que a IA está causando no varejo

NRF 2026: A quebra de regras que a IA está causando no varejo

Sem dados muito bem estruturados nas redes, plugar simplesmente a IA seria um erro — Flávio Rocha

A inteligência artificial (IA) tomou o centro da maior feira do varejo global, a NRF 2026 Retail’s Big Show. Pelos corredores do evento, a conclusão é que as gigantes da tecnologia estão transformando a IA em um sistema operacional de linha de frente para o comércio. Alguns exemplos ficaram mais claros nos últimos dias.

Há uma área do pavilhão exclusivamente para debate sobre o tema, algo inédito em mais de 110 anos de feira. Mas não se trata apenas de uma discussão teórica. Há um ambiente profícuo para se pensar acordos de negócios entre empresas de tecnologia, indústrias, comércio e serviços.

No evento em si, com cerca de mil exibidores, quem reinou foram as aplicações de IA, poucos dias depois do fim da CES Las Vegas, feira que já havia apresentado eletrônicos de consumo com a tecnologia.

No fim das contas, esse cenário em Nova York, à primeira vista, cria algumas combinações de parcerias que parecem, digamos, estranhas. Isso acontece pela notável diferença de tamanho entre as companhias, ou setores completamente distintos em fase de acordo, o que mostra que o jogo mudou, definitivamente.

Há megafabricantes de eletrodomésticos usando scanners com IA de startups, e lojas físicas de pequeno porte trocando estoques de produtos entre si com ajuda da inteligência artificial de grandes grupos.

Se na NRF de 2025 ainda havia muita discussão teórica para onde a IA poderia levar consumidores e empresas – e havia raros acordos na mesa -, em 2026, a IA aterrisou na feira e apresentou ferramentas e ações de uso muito mais prático.

Há pesquisas que falam que 95% das vendas do varejo até 2040 virão do on-line”

Ninguém parece querer perder muito tempo, e as varejistas brasileiras tentam se inserir nisso.

“As apresentações tentam ser muito mais pragmáticas, com detalhes mais específicos, e, no pavilhão da feira, tem se mostrado suas aplicações na rotina do negócio, ao contrário de 2025, quando ainda falávamos muito do desenvolvimento”, disse Maurício Morgado, sócio da Morgado & Vitelli Consultoria e coordenador do Centro de Excelência em Varejo da FGV-EAESP. A FGV levou uma delegação de brasileiros à NRF.

O Brasil é o país com o maior grupo de visitantes da feira, e a segunda maior delegação no total, atrás dos EUA. São 2,5 mil inscritos, segundo dados fornecidos pelos organizadores, de um total de 40 mil. São, pelo menos, cinco grandes delegações de executivos trazidos por consultorias, universidades e associações, num total de 250 a 350 empresas em Nova York.

Apenas uma caravana de empresários tem 60 CEOs, de grupos como Assaí, Magazine Luiza, Marfrig, Coca-Cola, entre outros.

A respeito do cruzamento de negócios e parcerias de empresas com diferentes focos e tamanhos, grupos como SAP, Microsoft, Google e Workday estiveram na NRF 2026 para apresentar soluções voltadas para os agentes de IA.

Infográfico mostra principais resultados de pesquisa realizada sobre uso de IA nas empresas. 2025.

Percebe-se entre elas que o foco central está em ajudar em três frentes principais: planejamento no dia a dia, área de operações e engajamento de clientes.

Segundo diferentes executivos ouvidos no evento, essas três áreas teriam evoluído mais em termos de projetos de IA de um ano para cá no mundo, saindo de testes ou pilotos isolados para avançarem para o campo de ganhos maiores de produtividade.

No Brasil, especificamente, há uma preocupação em particular com perdas (como falta de mercadorias nas gôndolas ou produtos fora do prazo de validade). O Valor apurou com supermercadistas que a atenção das grandes cadeias nos corredores da feira foi com esse tema.

“Nós brasileiros olhamos muito isso porque estamos num ano de venda mais difícil e, quando isso acontece, perdas sempre ganham importância, porque qualquer melhora nisso eleva margem”, diz o diretor presidente de uma rede do sul do país, que está em visita à NRF.

Sobre essa questão de gigantes de tecnologia estarem transformando a IA em um sistema operacional de linha de frente para o comércio, a SAP deve trazer uma solução na linha “faz tudo” para a frente de loja com o Retail Intelligence. O lançamento está previsto para o primeiro semestre de 2026.

O produto deve tentar harmonizar dados em tempo real de vendas, estoque, clientes e fornecedores, utilizando simulações geradas por IA para, por exemplo, planejamento de demanda e estoque de produtos.

Já a Microsoft virá com o Dynamics 365, com prévia prevista para fevereiro, mas já era tema nos corredores da NRF e no estande da empresa. O sistema vai fornecer aos agentes de IA dados como catálogo, preços, promoções, estoque. Isso vai permitir uma visão compartilhada de todas essas informações. Sem isso compartilhado, as informações não fluem e a IA não funciona.

Vale lembrar que, três dias atrás, o presidente mundial do Google, Sundar Pichai – que raramente faz apresentações em grandes congressos – esteve na NRF para anunciar o lançamento de um protocolo aberto para IA.

O produto define uma linguagem comum (que até então o Google não tinha) para que agentes e sistemas trabalhem juntos, e permitirá que os consumidores comprem produtos de varejistas diretamente por meio da IA do Google. Há 20 grandes varejistas já com acordos com o Google (Kroger, Walmart), mas a ideia é espalhar isso, não importa o tamanho do negócio de comércio.

Entre os produtos que começam a aparecer já dentro dessa lógica de tecnologias de IA integradas, há, por exemplo, o refrigerador da GE com leitor de código de barras integrado e tela de oito polegadas no dispensador externo, que “lê” até quatro milhões de produtos. Ele consegue rastrear o que está em falta na geladeira, monta receitas e passa informações para o consumidor.

Ao mesmo tempo, startups americanas de médio porte apresentaram na NRF opções de softwares que começam a integrar dados de estoques de produtos de lojas e centros de distribuição, para alocar isso de forma mais produtiva.

Dessa forma, quando aumenta o risco de faltar determinado alimento ou modelo de roupa num ponto de venda, o sistema já avisa a rede, que redireciona produtos de uma outra loja, por exemplo.

No Brasil, essas discussões, e a possibilidade de começar a testar novas soluções de IA – além das já implementadas pelas cadeias -, têm estado mais próximas da realidade de outros mercados, dizem consultores e varejistas.

“No passado, o que os americanos apresentavam na NRF, os colocavam há anos-luz de nós. Esperávamos, 3, 4, 5 anos para algo chegar. Mas com a IA, no caso das grandes redes, como já temos uma estrutura de dados inicial mais robusta, estamos falando de algo mais próximo das nossas empresas”, diz Marcos Gouvêa, presidente da consultoria Gouvêa Ecosystem.

Para citar alguns casos, a Galeria Magalu, a loja conceito do Magazine Luiza, em São Paulo, foi estruturada com apoio de sua influencer virtual Lu, que tem IA embarcada, e teve novos investimentos de IA para ser inaugurada.

A Renner está testando com o Google uma ferramenta chamada Virtual Try On que acaba de ser lançada no site. O cliente tira uma foto de si mesmo, e se enxerga numa peça de roupa da empresa no site. A princípio, já dá para testar com peças básicas, disse Fábio Faccio, presidente da rede.

Na visão de Flávio Rocha, membro fundador do IDV, o Instituto para o Desenvolvimento do Varejo, e conselheiro da Riachuelo, as companhias que não avançarem nessa agenda ficarão para trás. No caso do Riachuelo, há um esforço em andamento, e a varejista tem buscado trabalhar melhor a categorização de sua base de produtos – essencial para a IA conseguir trabalhar com as informações – antes de avançar em outras etapas. “Sem isso muito bem mapeado e estruturados dentro da empresa, plugar simplesmente a IA seria um grande erro, então há um trabalho prévio que precisa ser bem feito”, disse.

— Kevin Kelley, Valor Econômico, 14/1/2026
Foto: Silvia Costanti / Valor

Facsimile de artigo publicado no jornal Valor Econômico edição de 14 de janeiro de 2026. A quebra de regras que a IA está causando no varejo.
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