Vê se me entende: tô fora!

Vê se me entende: tô fora!

Confira o artigo de Marcos Gouvêa de Souza, conselheiro do IDV, publicado no portal Mercado & Consumo

Toda polarização nasce burra. Sem exceção.

Não importa o país, o mercado ou o segmento — ela é um filtro grosseiro que nos impede de enxergar a realidade em toda a sua complexidade.

Entre o preto e o branco, há muito mais do que 50 tons de cinza. E só quem tem um mínimo de maturidade, equilíbrio e disposição consegue perceber isso. Quando a polarização domina, todos perdem. Sempre. De alguma forma.

Ainda não temos estatísticas precisas por aqui, mas o sentimento que dá título a este texto “Tô fora!” parece estar cada vez mais presente. Cresce especialmente entre os mais jovens e aparece de forma clara na linguagem com que interagem e se expressam.

Idealização ou não, é nítida a percepção de que o país inteiro perde com essa divisão tosca. E isso independe de idade, classe social ou localização geográfica — ainda que, claro, haja nichos mais apegados ao passado.

A queda na popularidade das lideranças e o colapso na confiança das instituições são sinais claros de um cansaço coletivo. Algo precisa mudar, e rápido.

Não estamos falando de mudanças cosméticas ou populistas que só empurram os problemas para o futuro — um futuro que, aliás, já tem cara de país quase ingovernável a partir de 2027, esteja quem estiver no comando.

A raiz de tudo? A polarização política.

Ela emburrece o debate ao reduzi-lo aos extremos, e esse modelo mental contaminado se espalha para outras esferas: do mercado ao esporte.

No futebol, paixão nacional, vemos o mesmo efeito. Quando o País se divide entre apenas dois times, o resultado é previsível: intolerância, exagero e rivalidade desmedida.

Quando há pluralidade, a convivência se torna mais rica. As diferenças permanecem, mas o espaço para o diálogo aumenta. Isso não é estatística — é observação do cotidiano.

A polarização política, no entanto, é a mais tóxica. Ela paralisa o País há anos, mas agora começa a perder força à medida que o maniqueísmo vai mostrando seu verdadeiro custo. O “nós contra eles” embrutece e empobrece o debate.

Curiosamente, não é por falta de partidos. O Brasil tem 29 siglas registradas no TSE e outras 19 tentando entrar na dança. É um dos países com maior número de partidos no mundo, atrás apenas de Índia, Indonésia e Nepal.

Mas essa pluralidade, em vez de enriquecer o debate, virou balcão de negócios alimentado por dinheiro público. Em 2024, os fundos partidário e eleitoral distribuíram, juntos, R$ 6,2 bilhões, mais que o dobro de 2020. País rico é outra coisa!

No fim das contas, apesar da sopa de letrinhas, o que prevalece é a polarização. E com ela, a paralisia.

Enquanto isso, os temas estratégicos do País seguem esquecidos: desigualdade, segurança, educação e um projeto nacional de longo prazo.

O mundo se fecha em guerras tarifárias, protecionismo e “trumpices”. E o Brasil, perdido no seu próprio espelho retrovisor, precisa urgentemente olhar para frente.

Romper com essa polarização não é só desejável — é vital. Só assim será possível unir os setores público, privado e a sociedade em torno de um projeto comum.

Talvez, e aqui vai uma intuição, o próximo ciclo, a partir de 2027, dependa exatamente disso: de quem for capaz de construir pontes, de propor união, não divisão.

Quem tiver essa sensibilidade e coragem, pode mesmo mover a nação.

Polarização? Tô fora.

Vale a reflexão.

Marcos Gouvêa de Souza, conselheiro do IDV, é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma MERCADO&CONSUMO.
Imagem gerada por IA

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