Por Marcos Gouvêa de Souza *
Os fatores principais determinantes do comportamento do consumo, varejo e serviços envolvem renda das famílias, crédito, emprego e confiança dos consumidores. A inflação de alimentos, em particular, e a inadimplência têm impacto direto na confiança e como consequência no que e quanto consumir no varejo e no setor de serviços aos consumidores.
Apesar de todo o esforço para criar um clima positivo com geração de renda e emprego estimulados por programas oficiais, o comportamento recente desses indicadores sinaliza a perspectiva de um período ainda mais complexo pela frente na visão de curto e médio prazo. E ainda mais complexo no mais longo prazo pelo comprometimento do futuro com a busca da reeleição a qualquer preço.
A história se repete. Compromete-se o futuro da Nação pelos descaminhos da próxima eleição.
Os patamares atuais de desemprego estão especialmente baixos na sua série histórica por conta da metodologia que considera como desempregado apenas quem está procurando trabalho.
Toda a população beneficiada pelo programa Bolsa Família, perto de 21 milhões de famílias, pelas regras atuais não pode e não está procurando trabalho e, portanto, não faz parte dos que estão desempregados. E em boa parte faz crescer a informalidade na economia como um todo e no trabalho em particular.

Os estímulos e o desempenho econômico recentes têm criado uma melhoria efetiva da renda da população sinalizada pela evolução do rendimento médio real e que está nos seus maiores patamares dos últimos 13 anos. E com perspectiva de continuidade nos próximos meses.

A combinação do emprego elevado com a melhoria da renda média da população leva ao nível atual de evolução da massa salarial real, que é também o maior do período medido dos últimos anos. E que deve ser somado ainda aos benefícios do programa do Bolsa Família, elevando a renda total disponível e potencial para consumo.
Não há dúvidas de que essa massa salarial, ampliada pelos auxílios oficiais, cria um poder potencial de consumo maior. Mas boa parte é desviada para outras atividades, como as apostas em Bets que por estimativa do próprio Banco Central atingem entre R$ 20 e R$ 30 bilhões mensais.


Apesar da melhoria do emprego, da renda real e da massa salarial ampliada pelo Bolsa Família, a elevada inflação, acima das metas, corrói o poder de compra e, em especial, a confiança dos consumidores, reduzindo sua propensão e disposição para consumir.
Em particular para os segmentos de classes mais baixas a inflação de alimentos, seja em casa ou fora do domicílio, conspira para um comportamento mais cauteloso e migração de produtos e marcas de maior preço por alternativas mais baratas, favorecendo tudo que envolve varejo, consumo e serviços orientados para valor.

A oferta de crédito às famílias em suas diversas modalidades e finalidades tem evolução marcante nos últimos anos com seu lado positivo de estimular compras de imóveis, veículos, produtos e o consumo de forma geral. Mas nos patamares atuais de taxas de juros gera consequências diretas na inadimplência.
Em meados de 2013 o crédito às famílias representava perto de 25% do PIB e o patamar atual atinge 36,4%, marcando o expressivo crescimento real, porém onerado pelas taxas reais de juros atuais.

A consequência direta dos atuais patamares de taxas de juros determina a expansão do nível de inadimplência, que apesar de inferior ao pico observado na crise de 2012, tem mostrado tendência de forte alta nos últimos meses e já é o maior dos últimos dez anos.
Como resultado existe uma tendência à estabilização no nível de endividamento das famílias em relação à massa salarial pelo efeito conjugado do aumento real desta massa em questão, o crescimento da inadimplência com aumento no rigor na concessão de mais crédito e a própria cautela dos consumidores endividados.


Como resultado da combinação dos impactos da inflação no geral e em particular nos alimentos com o nível elevado de endividamento e mais a alta inadimplência, tudo isso somado a um quadro político interno e externo instável e indefinido, observa-se um comportamento com menor confiança dos consumidores, fator decisivo no comportamento de compras e consumo.
Ainda que nos últimos meses tenha mostrado pequena recuperação, o nível de confiança está em patamares mais baixos do que foi observado no período de 2023 e boa parte de 2024.

Os resultados observados no comportamento dos diversos setores do varejo e do consumo, de produtos e serviços, mostram que apenas poucos setores têm desempenho real positivo e relevante na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Alguns se destacam por questões estruturais e mudanças relevantes de hábitos, como farmácias, cuidados pessoais e cosméticos ou tudo que envolve varejo de valor e têm desempenho bem superior à média.
Importante destacar que o comportamento setorial apresentado é sempre medido em termos reais e descontados da inflação setorial.


Ainda que ninguém siga um líder pessimista, é preciso realismo.
Não podemos nos iludir.
Apesar das melhorias dos indicadores de renda e emprego, a combinação dos níveis atuais de inflação com as elevadas taxas de juros como antídoto para debelar o problema potencializados pelo endividamento, e em especial pela inadimplência, geram desconfiança, cautela e retração, afetando de forma geral o comportamento dos consumidores.
E tudo isso ainda impactado pela evasão representada pelas apostas nas Bets, que desviam do consumo, do varejo e dos serviços entre R$ 240 e R$ 360 bilhões por ano. E que se quer caracterizar como entretenimento.
Num horizonte de tempo dos próximos 18 meses é recomendável muita cautela na expectativa de uma melhoria significativa do comportamento de mercado e isso terá, sem dúvida, impacto relevante no cenário das eleições de 2026.
O tempo mostrará quanto.
* Marcos Gouvêa de Souza, conselheiro do IDV, é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma MERCADO&CONSUMO.