Redução dos juros impulsionou resultados do varejo em 2024
Confira o artigo de Marcelo Silva, vice-presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza e ex-presidente do IDV, publicado pelo portal Poder360
A cada encerramento dos trimestres, apresento neste Poder360 uma avaliação da performance de algumas das principais empresas do varejo brasileiro, a partir das demonstrações financeiras do VAD (Valor Adicionado) publicadas. A maioria dessas empresas são associadas ao IDV (Instituto para o Desenvolvimento do Varejo), do qual honrosamente participo desde a sua fundação em 2004.
O objetivo desta avaliação é apresentar a participação e correspondente distribuição dos principais valores componentes dos resultados das empresas, distribuídos em pessoal (colaboradores), impostos (governos), remuneração de capitais de terceiros (rentistas) e remuneração de capitais próprios (acionistas).
pessoal (colaboradores) – conforme acima demonstrado, constata-se a manutenção da participação das despesas com remuneração, benefícios, FGTS e outras despesas destinadas aos colaboradores das empresas: R$ 42,4 bilhões em 2023 versus R$ 43 bilhões em 2024;
impostos, taxas e contribuições aos governos federal, estaduais e municipais – apresentam um acréscimo importante da ordem de R$ 37 bilhões (2023) versus R$ 44 bilhões (2024), o que representa uma variação adicional de 17%, sobrecarregando sobremaneira os resultados das empresas;
remuneração de capitais de terceiros – apresenta uma redução de R$ 40,1 bilhões em 2023 para R$ 27,2 bilhões em 2024, decorrente da redução das taxas de juros ao longo do ano passado: 11,75% em dezembro de 2023, iniciando um corte gradual a partir de janeiro de 2024, atingindo a menor taxa de 10,50% de maio a julho, voltando a subir nos meses restantes de 2024, encerrando com 12,25% em dezembro de 2024.
Essa leve redução na taxa de juros durante o ano de 2024 refletiu no montante dos juros pagos nesse ano, o que corrobora os efeitos perversos que as altas taxas de juros provocam nos resultados das empresas.
O retorno dos aumentos nas taxas de juros a partir de setembro de 2024, atingindo o patamar de 14,25% em março de 2025, certamente já está influenciando duramente os resultados das empresas no exercício de 2025. Veremos depois da publicação das demonstrações financeiras referentes ao 1º trimestre deste ano.
remuneração de capitais próprios – apresenta no exercício de 2024 um valor negativo de R$ 2,2 bilhões (R$ 1,5 bilhão em 2023). O aumento significativo no total dos impostos pagos aos governos (federal, estaduais e municipais) e o volume altamente expressivo das despesas financeiras acarretaram um total negativo de R$ 2 bilhões na remuneração de capitais próprios. Os acionistas, de um modo geral, continuam não recebendo a devida remuneração ao capital investido em suas empresas.
Concluímos, repetidamente, que a conjuntura vivenciada pelas empresas brasileiras no que tange aos impostos (para as pessoas físicas e jurídicas que efetivamente pagam os impostos devidos pela legislação tributária vigente no país), aliados a taxas insuportáveis dos juros praticados atualmente, é absolutamente insustentável.
Além da reforma tributária em curso, que esperamos venha a corrigir as distorções do verdadeiro “manicômio tributário” vigente, uma reforma administrativa e do modelo do Estado brasileiro urge para que os deficits públicos sejam significativamente reduzidos para permitir equilíbrio e sanidade financeira às empresas e à população, que, no final das contas, é quem tudo paga.