Sergio Zimerman lista “sete fatores” que drenam consumo no país e compara liberação de apostas a drogas
Por Germano Oliveira, do Rio de Janeiro
O conselheiro do IDV e presidente do Conselho de Administração do Grupo Petz Cobasi, Sergio Zimerman, afirmou que a liberação das bets no Brasil integra um conjunto de medidas que está destruindo o varejo brasileiro. Ele classificou a legislação sobre apostas como “a pior do mundo”.
A declaração foi feita em palestra na sexta-feira, dia 21, no 25º Fórum Empresarial do Grupo Lide, realizado no Rio de Janeiro. Na ocasião, Zimerman listou “sete fatores” que, na avaliação dele, “drenam o consumo, prejudicam empregos e ampliam a desigualdade”. Ele falou na condição de membro da Liga Empreendedor e de conselheiro do IDV, o Instituto para Desenvolvimento do Varejo.
Zimerman situou o porte do grupo que preside. Segundo ele, o Grupo Petz Cobasi possui hoje 520 lojas em 24 das 27 unidades da Federação, cerca de 15 mil funcionários, faturamento estimado em R$ 8 bilhões neste ano e mais de 60 mil investidores na bolsa. De acordo com o executivo, é a maior empresa da América Latina no setor pet e a sétima maior do mundo no segmento.
“E por que eu estou dizendo tudo isso? Para dizer que o Grupo Petz é um péssimo exemplo para falar sobre o varejo, porque é um outlier [ponto fora da curva] e o varejo não está assim”, afirmou.
O grupo nasceu da fusão entre as duas maiores redes do país, Petz e Cobasi. O negócio foi anunciado em abril de 2024, aprovado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) em 2025 com a determinação de venda de 26 lojas em São Paulo, e deu origem à companhia listada na B3 sob o código AUAU3. O comando executivo ficou com Paulo Nassar, cofundador da Cobasi, como presidente-executivo, e Zimerman como presidente do Conselho.
“Se tivessem encomendado para os alunos mais brilhantes de Harvard um plano para destruir o varejo brasileiro, as mentes mais brilhantes não teriam tido a competência, a criatividade de uma parte da classe política brasileira, de uma parte do Poder Judiciário brasileiro, que, através de uma sucessão de coisas, estão conseguindo destruir o varejo brasileiro”, disse Zimerman.
Os sete pontos citados por ele são: “juros altos, empréstimo consignado sem educação financeira, a chamada ‘taxa da blusinha’, as bets, a falta de regulação dos marketplaces, a legislação trabalhista e a reforma tributária”.
Sobre juros, comparou o superávit primário ao Ebitda – lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização – de uma empresa e disse que “o governo que gasta mais do que arrecada precisa pagar juros cada vez mais altos, o que tira renda disponível da população e cria um paraíso para quem tem dinheiro colocado no banco”.
O segundo fator, segundo ele, é o consignado, que faz o trabalhador chegar ao fim do mês sem salário e migrar para a informalidade para se livrar do desconto.
O terceiro é a “taxa da blusinha”. Para Zimerman, “o Brasil inverte a lógica mundial ao tributar em cerca de 100% quem produz no país e estudar alíquota zero para quem vende de fora via medida provisória”.
O quarto ponto, e foco central da crítica, são as bets. No trecho dedicado ao tema, ele afirmou:
“O quarto assunto são as bets. Eu acho que o Brasil tem a pior legislação do mundo sobre o tema bet”.
“Se eu pudesse fazer uma metáfora aqui, é como se a gente estivesse falando do mundo das drogas, o Brasil liberou a cocaína, mas continua proibindo a maconha”.
“Porque liberar a bet e proibir o cassino é um absoluto contrassenso. Quer dizer, você não pode pegar uma roupa, pegar um carro e se deslocar até um cassino para fazer um jogo físico, mas você pode ficar de pijama na sua cama com a tela do celular apostando. O Brasil é o único país do mundo que tem a bet liberada e o cassino proibido”.
Para Zimerman, “Bet se tornou um problema de saúde pública, aumento de divórcios, aumento de taxa de suicídios. E o mínimo que nós precisamos dos nossos legisladores é, se vai ser permitida a bet, que pelo menos seja tratado como um problema de saúde pública, a exemplo do cigarro, ou seja, 100% de proibição de qualquer tipo de propaganda de bet”.
Sobre arrecadação, disse: “Finalmente, ainda sobre a bet, o argumento de que se recolhe 15% de impostos é um argumento que não contempla que o dinheiro não cai do céu”.
“E o dinheiro que está indo para a bet é o dinheiro que está saindo do consumo. E o imposto do consumo é 35% sobre o faturamento. Então, não existe ganho nenhum para o poder público”, acrescentou.
E concluiu: “Pelo contrário, existe destruição de valor. O dinheiro, ao invés de ir para o consumo e pagar 35%, está indo para a bet pagando 15%”.
Os outros três fatores citados foram o marketplace como “camelódromo digital sem responsabilização dos donos sobre sellers que vendem produto pirata ou sem nota”, a Justiça trabalhista que, segundo ele, voltou a permitir que o funcionário “mentir, inventar” após o Supremo Tribunal Federal (STF) barrar honorários de sucumbência, com indenizações desproporcionais, e o Imposto sobre Valor Agregado (IVA) da reforma tributária, que seria o mais alto do mundo, “mantendo 80% da arrecadação sobre trabalho e consumo, o inverso dos EUA”.
Brasil Confidencial, 23/8/2026
(Foto: Evandro Macedo e Gabriel Okawa/ LIDE)