Para Riachuelo e Renner, fim da taxa das blusinhas torna mercado injusto

Para Riachuelo e Renner, fim da taxa das blusinhas torna mercado injusto

Duas das principais varejistas brasileiras estudam mudar as estratégias de venda para enfrentar a concorrência chinesa após o fim da taxa das blusinhas, como ficou conhecido o imposto de importação para remessas de até US$ 50.

O que aconteceu

Passar a importar é alternativa da indústria brasileira. O Grupo Guararapes, dono de fábricas têxteis e da rede de lojas Riachuelo, cogita importar mais para reduzir a desvantagem de custos e concorrer no mesmo modelo de negócio usado pelas plataformas de varejo chinesas, diz o diretor-geral da companhia, André Farber, também CEO da Riachuelo.

Sem a taxa das blusinhas, produto nacional paga o dobro de impostos que os importados, diz Farber. Tanto para produzir localmente como para importar, empresas brasileiras pagam mais tributos que os produtos chineses que entram por meio de remessas diretas, agora sem a taxa de importação de 20%, segundo o diretor-geral da companhia.

Se importar, varejista nacional paga quase quatro vezes mais em tributos que produtos que entram no país via remessa, diz Riachuelo. A conta considera imposto de importação (35%), PIS/Cofins (11,75%) e ICMS (17% a 22%, dependendo do estado em que a mercadoria for vendida). Por outro lado, um produto similar importado da China diretamente pelo consumidor via remessa vai pagar apenas o ICMS estadual, da ordem de 20% no máximo.

Para importar, pagamos quatro vezes mais impostos. Para ter um lucro de R$ 20, ou seja, 10%, eu preciso vender uma camisa por R$ 200. O importado via remessa, para ter o mesmo lucro, pode vender por R$ 140.
André Farber, diretor-geral da Guararapes

Para produzir no Brasil, tributação também chega a ser mais que o dobro da paga por importados via remessa sem taxa de importação. Segundo cálculos do IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário), uma camisa produzida no Brasil paga de 34,6% a 45% em tributos e taxas. Se forem considerados os encargos trabalhistas embutidos em todas as etapas da produção, a carga tributária supera os 50%.

Governo deveria recuar da decisão, defende empresa. Por isso, o CEO da Riachuelo diz que espera a volta da taxa das blusinhas por uma questão de justiça. “O justo é que seja revisto”, afirma.

Faz sentido o governo querer dar mais acesso da população a produtos, mas isso não pode ser feito via assimetria de imposto. Se for para ter redução de imposto, que seja para todos.
André Farber, diretor-geral da Guararapes

Caso situação não seja revertida, setor pode recorrer a demissões. O executivo afirma que essa desvantagem de custo torna a competição inviável para produtos de até US$ 50. Assim, a Riachuelo não descarta reduzir o número de vagas para ajustar a produção às condições de preços da concorrência dos importados.

Se a decisão de acabar com a taxa das blusinhas for mesmo mantida, talvez a gente tenha que começar a demitir pessoas.
André Farber, diretor-geral da Guararapes

Renner também critica fim da taxa das blusinhas. A empresa diz que medida impacta a competitividade da indústria nacional e a geração de empregos, indiretamente dando benefícios fiscais para geração de emprego e renda no exterior. Segundo a companhia, a medida amplia “ainda mais o desequilíbrio tributário entre empresas que atuam no Brasil e empresas que operam de fora do país”.

Importação direta a consumidores brasileiros impacta competitividade da indústria nacional. Por tabela, essa situação trava a geração de empregos e reduz a renda local, para favorecer as economias de fora. O tema foi abordado pelo presidente da empresa, Fabio Faccio, em evento com investidores realizado semana passada, em Nova York.

As empresas estão trabalhando no país, empregando e pagando uma carga tributária elevadíssima, enquanto outras estão ganhando um benefício tributário nos seus países e no nosso país. A competição fica desigual.
Fabio Faccio, CEO da Lojas Renner

107 mil empregos

Taxa ajudou a criar 107 mil empregos, diz setor. Segundo o IDV (Instituto para Desenvolvimento do Varejo), iniciativa de empresários e presidentes das 67 maiores varejistas no Brasil, o Remessa Conforme, que regulamentou regras e impostos para produtos comprados por meio das plataformas chinesas, desde agosto de 2024, empresas brasileiras voltaram a investir e contratar funcionários. “Foram criados em torno de 107 mil empregos no primeiro ano decorrentes da melhora da competitividade”, disse o presidente da entidade, Jorge Gonçalves Filho.

Varejistas brasileiras querem mesmas condições de tributos. Gonçalves Filho afirmou que é preciso “isonomia tributária” entre empresas brasileiras e plataformas estrangeiras de comércio eletrônico, como Shein e AliExpress. “O mercado interno vai ser extremamente prejudicado com produtos chineses e asiáticos que vêm com preço subsidiado”, disse o presidente do IDV.

Encargos trabalhistas elevam carga tributária sobre indústria nacional. No caso de grandes polos industriais globais, como China, Indonésia, Bangladesh e Vietnã, fatores estruturais impactam o custo final da mercadoria, como baixo custo da mão de obra, regimes trabalhistas menos protetivos que o brasileiro, políticas de incentivo à exportação, ganhos de escala e cadeias produtivas altamente verticalizadas, aponta a advogada Roberta Hatherly Tondim, especialista em direito empresarial do BMBZ Sociedade de Advogados.

Os encargos trabalhistas aumentam o custo de produção nacional, especialmente em um setor intensivo em mão de obra, como o têxtil e o de confecção. Sobre a remuneração do trabalhador incidem custos como FGTS, INSS patronal, férias, 13º salário, adicionais e provisões trabalhistas, que elevam o custo total da folha para o empregador.
Roberta Hatherly Tondim, advogada do BMBZ Sociedade de Advogados

Pequenos negócios

Varejo e indústria de médio e pequeno portes vão sofrer mais. O fim da taxa das blusinhas impacta as margens das grandes varejistas, mas não deve abalar o modelo de negócio de redes como Renner, Riachuelo e C&A Brasil, diz o consultor Alberto Serrentino, da Varese Consultoria Varejo. Como mostrou reportagem do UOL sobre o impacto da medida na indústria têxtil no interior de Pernambuco, o problema deve afetar mais gravemente operações de menor porte.

Certamente isso [o fim da taxa de importação] vai ser um incentivo para voltarmos a ver um crescimento das compras em plataformas que vendem via cross-border [importação via remessas], principalmente nas categorias de produtos em que essas compras têm maior relevância.
Alberto Serrentino, sócio-fundador da Varese Consultoria Varejo

Segmentos populares terão que ajustar negócios para preservar margens. O varejo brasileiro que vende produtos na faixa de preço de até US$ 50 (cerca de R$ 250, pelo câmbio desta semana) vai ter que reduzir margens para enfrentar maior concorrência dos importados, diz o sócio da Lúmina Consulting, professor da FGV-EAESP e coordenador do FGVcev – Centro de Excelência em Varejo da FGV-EAESP Maurício Morgado.

Medida coloca em vantagem alguém que não produz no Brasil, que não colabora para a nossa economia e paga muito menos impostos do que os que estão aqui estabelecidos, sem gerar emprego.
Maurício Morgado, professor da FGV-EAESP

Menos lucro

Juntas, Renner e Riachuelo respondem por cerca de 15% do varejo brasileiro de vestuário. Segundo estimativas de analistas de bancos que acompanham as companhias do setor de varejo, a Renner detém aproximadamente 10% das vendas entre as redes de vestuário, lider nesse segmento, enquanto a Riachuelo, com uma fatia da ordem de 5%, disputa a vice liderança com a C&A Brasil.

As plataformas asiáticas continuam mais baratas que as lojas nacionais, com preços entre 6% e 13% menores. Um levantamento do banco BTG, do dia 13 de maio, comparou uma cesta de oito produtos da Shein com itens da Lojas Renner, C&A Brasil e Riachuelo.

O mercado financeiro projeta perdas de receita e lucro para as marcas brasileiras de vestuário. O Bradesco BBI prevê um impacto negativo de 1% na receita, enquanto o Itaú BBA estima em cerca de 2% o impacto nas vendas e em até 6% no lucro líquido para algumas dessas companhias.

As redes investiram milhões no primeiro trimestre para melhorar a eficiência das operações. A Riachuelo aportou R$ 146 milhões, e a Renner investiu R$ 106 milhões. Segundo o banco Goldman Sachs, as operações das varejistas nacionais ganharam eficiência nos últimos anos, destacando ganhos obtidos com a redução de prazos de entrega e ciclos de produtos menores, com mais coleções a cada temporada.

Justificativa do governo

Governo federal zerou a alíquota de importação para compras internacionais de até US$ 50 por meio de uma MP (medida provisória) na semana passada. A cobrança, criada pela Lei 14.902/2024, estava em vigor desde agosto de 2024 e afetava principalmente as plataformas importadoras, como Shein, Shopee e AliExpress, incidindo sobre roupas, eletrônicos e outros itens, além do ICMS de 17%, que continua sendo cobrado.

O fim da taxa devolve a vantagem tributária aos produtos importados em relação aos itens fabricados no Brasil. Um produto nacional paga impostos industriais, estaduais e federais, enquanto a remessa do exterior arca apenas com o ICMS, limitado a 20%.

Governo diz que taxa já cumpriu papel no mercado. No evento de anúncio do fim da taxa de importação, em 12 de maio, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, disse que a medida só foi possível após a regularização do setor. “O contrabando foi eliminado”, afirmou.

Ministro Planejamento e Orçamento afirmou que mudança beneficia o consumo popular. “O que importa mesmo é que são produtos de consumo popular. A maior parte das compras é de pequeno valor”, disse Bruno Moretti.

O governo arrecadou cerca de R$ 180 milhões mensais enquanto a taxa esteve em vigor. Com a cobrança, o volume de encomendas internacionais caiu de 18 milhões para 11 milhões por mês no final de 2024, segundo dados do mercado. De acordo com a Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção), 80% das peças vendidas no Brasil custam menos de US$ 50.

Publicado no portal UOL, 23/5/2026
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