Confira o artigo de Marcos Gouvêa de Souza, conselheiro do IDV, publicado no portal Mercado & Consumo
O Latam Retail Show 2026 com o tema central Everything as a Service, reuniu perto de 220 palestrantes, cerca de 100 horas de conteúdo, integrou 9 eventos em paralelo e apresentou 16 pesquisas/estudos inéditos. E lançou o livro Retail Services potencializado pela IA, reunindo 24 coautores com análises verticais de setores no Brasil e a visão global a partir do entendimento desse processo nos EUA, China, Nova Zelândia e outros países europeus.
Qualquer tentativa de síntese é naturalmente ambiciosa, mas alguns pontos podem e devem ser destacados por sua relevância para a compreensão do movimento mais estratégico que estamos acompanhando.
O varejo está migrando de “produto” para “solução”
O conceito central do evento, Everything as a Service, potencializado pela IA, apareceu como uma mudança estrutural, com produto, serviço, conveniência, experiência, dados, relacionamento e tecnologia sendo combinados em uma única proposta de valor.
O lançamento do livro Retail Services AI, com 24 especialistas, reforçou essa tese.
E o livro se propôs a ser a primeira Obra Viva, convidando leitores das versões físicas e digitais a se tornarem coautores, contribuindo com visões, comentários, experiências e cases que serão tratados por IA para a permanente atualização e ampliação da compreensão desse processo em permanente evolução.
A IA deixa de ser ferramenta e se torna parte da própria jornada de compra
O conceito de AI-first customer apareceu de forma recorrente. A evolução mais disruptiva é o comércio agêntico, quando agentes poderão pesquisar, comparar, decidir e até concluir compras em nome do consumidor, aproximando o mercado do zero-click commerce.
Quanto mais IA, maior o valor do humano
A WGSN reforçou uma questão estratégica: a IA torna a eficiência, a velocidade e a personalização cada vez mais acessíveis a todos. Com isso, essas características deixam de ser diferenciais. Experiência, emoção, sensorialidade, autenticidade e conexão humana ganham importância fundamental, e isso abre perspectivas ainda mais relevantes para o repensar o papel das pessoas nas organizações.
O consumidor mudou e ainda mudará muito mais. Mas a causa da mudança está antes do consumo.
A Worldpanel mostrou que o novo shopper é resultado da combinação da pressão econômica com a transformação demográfica e com as novas prioridades sociais. No Brasil, 78% dos shoppers combinam cinco ou mais canais e 39% já utilizam IA na decisão de compra. Ou seja, a omnicanalidade expandida deixa de ser estratégia de canal e passa a ser característica básica do comportamento.
Valor está substituindo preço como eixo mais amplo da decisão
O consumidor sob pressão econômica e as mudanças comportamentais simplesmente não migram para o mais barato; eles reorganizam sua cesta de compras de produtos e serviços, comparam benefícios e escolhem onde economizar e onde pagar mais. Marca própria, inovação, conveniência, saúde, bem-estar e experiência aparecem como componentes dessa equação de valor amplificada.
A competitividade volta a ser uma questão de produtividade e execução
A programação foi organizada em Transformação, Resultado e Competitividade, sinalizando uma preocupação que integrou os debates, ao mostrar que tecnologia somente cria valor quando se converte em produtividade, margem, experiência ou crescimento. A discussão sobre IA aplicada à loja e aos processos reforçou essa passagem de “experimentação” para “resultado”.
A loja física reconfigurada e potencializada pela IA incorpora novas funções e oportunidades
Os conteúdos e exemplos apresentados como MadeiraMadeira, RD Conceito, EssilorLuxottica e outros cases, mostram a loja evoluindo ainda mais rápido e de forma mais ambiciosa para um ponto de experiência, relacionamento, informação e coleta de inteligência com crescente incorporação de IA nas funções operacionais e nas dimensões de experiência, conveniência, solução e personalização. Isso envolve até mesmo IA transformando conversas entre vendedores e clientes em dados para vendas, treinamento, marketing e produto.
A longevidade virou um mercado muito mais do demográfico
A economia da longevidade entrou formalmente na agenda, com pesquisa baseada em 1.260 pessoas com mais de 65 anos, analisando consumo, finanças, vida digital, saúde, alimentação, sociabilidade, bem-estar e lazer. A conclusão fundamental é que o envelhecimento passa a demandar produtos, serviços, canais e experiências específicos, e isso torna essa frente um potencial econômico e de negócios importante para ser considerado.
Novos modelos de negócio estão redesenhando categorias inteiras
Circularidade, DTC, social commerce, internacionalização, marketplaces, foodservice, shopping centers, franquias e novas formas de monetização mostram que as fronteiras tradicionais dos setores estão se dissolvendo. A discussão sobre moda circular, por exemplo, reforçou o movimento “para além do produto”.
Ecossistemas começam a substituir a lógica da empresa isolada
A discussão da necessária integração de serviços, IA, dados e plataformas converge para um modelo no qual a empresa passa a combinar ativos próprios com parcerias, tecnologia, dados, serviços, conexão com comunidades, e a necessária orquestração de tudo isso, ativando o repensar do modelo de organização, que migra cada vez mais para os ecossistemas de negócios.
A integração é a resposta inevitável para empresas, setores e sociedade no sentido de um entendimento maior, mais ambicioso, profundo e abrangente
Talvez seja o ponto mais institucional do LRS 2026, pois, diante de um ambiente de transformação acelerada e dos desafios brasileiros, o isolamento setorial não é suficiente. A construção de alternativas exige diálogo, integração e colaboração entre varejo, indústria, serviços, tecnologia, entidades e governo.
O evento extrapolou o varejo e assumiu uma agenda mais ampla para o Brasil
Talvez esta seja a mensagem mais estratégica. O Latam Retail Show reuniu varejo, indústria, serviços, tecnologia, foodservice, shopping centers, moda, saúde, finanças e outros segmentos. A provocação sobre a necessidade de conversar, dialogar e integrar para encontrar soluções ganhou uma dimensão maior diante dos cenários econômico e institucional brasileiro. A presença e o discurso de líderes como Luiza Trajano e Gilberto Tomazoni reforçaram a discussão sobre liderança empresarial e futuro do País.
Extrato da síntese
O Latam Retail Show 2026 mostrou que o varejo deixou de ser uma atividade de venda de produtos para se transformar em uma atividade de orquestração de soluções e combinando serviços, IA, dados, experiência, canais, parceiros e ecossistemas, enquanto o consumidor se torna ainda mais multicanal, mais pressionado, mais assistido por IA e, simultaneamente, mais exigente por valor e conexão humana.
Talvez a síntese final envolva mais do que a forma como o varejo vai usar IA para evoluir, desenvolver e potencializar seus ativos estratégicos, mas também como empresas e ecossistemas vão se reorganizar quando o consumidor também passar a ter IA como agente de decisão. Essa constatação muda radicalmente tudo o que envolve a relação entre indústria, varejo, marcas, canais, serviços e consumidor.
E o envolve também esses setores e atividades com os temas para além de seus negócios.
Vale a reflexão.
Nota: Ao final do Latam Retail Show, 2026 foi proposto aos participantes que trouxessem suas visões sobre os principais desafios e oportunidades para o varejo no momento global e com as particularidades locais. O produto da contribuição dos participantes foi interpretado pela GAIA (Gouvêa AI Agent), que gerou um texto de síntese, compartilhado no encerramento do evento.
Existe um País que acorda antes do sol. E que cada vez mais nem dorme, pois atende 24 horas por dia, 7 dias por semana pelos canais digitais.
Abre portas. Se conecta e ajusta o que é preciso para continuar entendendo e atendendo o omniconsumidor mais empoderado.
O varejo acorda preocupado, levanta com esperança e convive com falta de gente, boletos ainda não automatizados, vídeos para gravar para as redes sociais, tentando aprender IA e também descobrir um novo produto, um novo parceiro, uma nova oportunidade de negócio.
E isso todos os dias. Quer desafios maiores? De fato, o varejo não precisa novos e maiores desafios. Precisa atuar de forma integrada para criar novas soluções
Os juros dificultam ainda mais o cenário. O crédito encolhe. A inadimplência cobra o seu preço. As bets levam bilhões que seriam do consumo. O mercado global está competindo de igual para igual. Os canais digitais fazem parte do jogo. Os impostos – ainda em definição – multiplicam as dúvidas. A burocracia multiplica o imposto.
E ainda é preciso atender seis gerações ao mesmo tempo — da geração alfa ao baby boomer — num país que passa cada vez mais horas por dia de olhos numa tela. Nesse quadro, a venda pode até crescer, mas a rentabilidade pode perecer.
Como ser percebido em um tempo em que há tantas alternativas e como ser mais relevante?
O varejo é especialista em recomeços. Quando as respostas se tornam abundantes, o desafio deixa de ser responder. Em tempos de IA, o fundamental passa a ser as perguntas.
E cada vez mais evoluir do “que posso vender” para que “demanda podemos resolver?”
Porque o maior desafio nunca foi vender mais, mas sim dar ao consumidor uma razão para escolher seu negócio.
Com razão para confiar. E voltar. E voltar.
Mais do que o preço mais baixo; é gerar valor para demandas reconfiguradas. Não é o produto sozinho. É o serviço que vem junto, o vínculo e a recorrência. A solução. Não é a tecnologia no lugar das pessoas. É a IA automatizando o que não precisa ser humano para sobrar mais tempo para o que só o humano entrega: conexão, experiência e relacionamento.
Convivem a loja física, que deixa de ser endereço e vira destino. Encontro. E pode promover experiência que nenhuma tela entrega. Que humaniza o digital.
E para consumidores com vidas mais intensas. E extensas. Com demandas diferentes e mais abrangentes.
O varejo, melhor do que ninguém, enxerga toda essa diversidade e realidade. Porque convive, conecta e está a cada momento ao lado desse consumidor.
E se convence que de que é na troca, na parceria que se encontram novas soluções. Na cultura que experimenta e muda rápido. Porque a cultura muda o jogo.
É por meio das pessoas, na criatividade, na valorização do ser humano, que sempre surgem as soluções de forma inédita.
O varejo já provou, na pandemia, o que acontece quando se une. Cada venda gira a economia. Gera empregos. Agrega famílias. Mantém um País forte. Acima de juros. Acima da crise. Acima dos governantes.
Que ninguém confunda nossa esperança e determinação com ingenuidade. Como sempre não esperamos o futuro chegar.
O varejo recomeça todos os dias o tempo todo. E cada vez mais 24×7. Todos os dias do ano. Pois isso, é o que consumidor pede.
O varejo não para. O varejo pergunta. O varejo resolve. O varejo seguirá criando caminhos e alternativas. Tem consciência da responsabilidade de ser o maior empregador privado do país. E enquanto houver líderes comprometidos em atrair, atender e encantar consumidores, este país não vai parar.
Mas precisa parar para pensar – e cada vez mais – como o setor pode contribuir mais com a nação.
Marcos Gouvêa de Souza, conselheiro do IDV, é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma MERCADO&CONSUMO.
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