O que precisa ser aprendido sobre a Coreia para além do varejo

O que precisa ser aprendido sobre a Coreia para além do varejo O que precisa ser aprendido sobre a Coreia para além do varejo

Confira o artigo de Marcos Gouvêa de Souza, conselheiro do IDV, publicado no portal Mercado & Consumo

Nos anos 1960 o Brasil era maior, mais rico e mais estruturado do que a Coreia do Sul, que permanecia ainda rural, pobre e devastada pela guerra com seu vizinho do Norte.

Porém a Coreia decidiu desenvolver um projeto de Nação, enquanto no Brasil somos a continuidade de projetos até a próxima eleição.

No período de 60 anos, a Coreia construiu uma das maiores transformações econômicas da história moderna num projeto estratégico próprio apoiado principalmente na educação, com o desenvolvimento econômico interno mirando o mercado externo e integrando governo e setor empresarial para torná-lo efetivo e real.

O projeto teve 3 pilares estratégicos claros:

  1. Educação, como infraestrutura econômica, formando capital humano antes de formar consumo.
  2. Industrialização orientada ao mercado interno e exportação com a criação dos conglomerados globais, os Chaebols
  3. Coordenação do Estado com setor empresarial com uma estratégia de longo prazo.

O conjunto desses elementos formou um país que, com uma população de pouco mais de 50 milhões de habitantes e importantes limitações naturais, tornou-se uma das 12 maiores economias do mundo e com PIB per capita 3,4 vezes maior que o do Brasil nesse período.

Seguramente vale melhor conhecer para inspirar e aprender.

Aspectos diferenciados no varejo e consumo

Na Coreia o que vemos no varejo é também reflexo dessa visão estratégica e se traduz em três obsessões nacionais envolvendo eficiência, velocidade e sofisticação.

Os exemplos dos ecossistemas criados a partir do varejo são marcantes.

Como Lotte, atuando com lojas de departamento (Lotte Department Store), supermercados (Lotte Mart), operações duty free e e-commerce.

O Shinsegae Group opera lojas de departamentos, cash and carry (Traders), supercenters (E-Mart) e SSG no e-commerce, além do conceito No Brand, lojas apenas de marca própria. E sempre com a característica de importar os conceitos desenvolvidos em outros países e reinterpretá-los à moda coreana.

O Hyundai Group opera lojas de departamento que se mesclam com shoppings centers, reconfiguradas para incorporar muitos serviços, experiências e um posicionamento premium que faz com que sua principal loja em Seul tenha 350 operações de foodservice integradas no seu complexo.

Nos formatos de lojas menores de conveniência, algo cuja densidade é marcante por lá, destaca-se a GS Retail, com mais de 18 mil lojas GS25. Já a BGF Retail opera a Convenience for You (CU), com perto de 19 mil lojas, num modelo de negócio próprio com adesão de lojas individuais.

No e-commerce, operado por todos os principais ecossistemas varejistas, são destaques a Coupang – caracterizada como a Amazon da Coreia – e a Naver, principal plataforma digital por lá.

Chama muito a atenção a proposta da Kakao, um ecossistema que tem na Kakao Talk seu principal instrumento de integração e envolvendo messaging, pagamentos, varejo e outros serviços integrados digitalmente, em muito similar ao que se desenvolveu na China com Tencent e seus WeChat e WePay.

Merece também destaque a Oliver Young, que é o mais importante operador envolvendo saúde, beleza, cosmética e cuidados pessoais, e que se tornou um símbolo da Coreia moderna.

E vale sempre lembrar que as marcas coreanas, especialmente de eletrônicos e cosmética, estão entre as precursoras globais em sua estratégia de DTC, ou seja, na chegada direta ao consumidor final com conceitos físicos e digitais.

K-culture como posicionamento global

Tudo que envolve a K-culture se transformou numa plataforma global de exportação da cultura, costumes, moda, música e conceitos da Coreia e como parte do projeto estratégico. E com penetração marcante especialmente entre os segmentos mais jovens em todo mundo ocidental.

Em muitos outros aspectos, a K-culture tem papel importante no posicionamento global da Coreia e atrai recursos, interesse e uma inegável simpatia gerando crescente proximidade e identidade cultural.

Mas sempre fundamental identificar que essa expansão e interesse não são obra do acaso, mas sim algo planejado e desenvolvido com a finalidade de apoiar a expansão econômica global dos Chaebols.
O que se aprende com quem cresce muito mais rápido e de forma consistente?

A história recente da Coreia não é apenas um caso de sucesso econômico. É um caso de escolhas. De priorizar educação. De pensar no longo prazo. De alinhar interesses. De competir globalmente. E, principalmente, da escolha de executar com consistência e integração.

Isso é o que mais deveria nos provocar. Porque mostra que não se trata de capacidade. Trata-se de decisão.

E o Brasil?

Precisamos, urgentemente, responder a uma pergunta simples: O que queremos ser como Nação? Sem essa resposta, continuaremos avançando em ciclos curtos, com ganhos pontuais e consistentes perdas estruturais e sociais. Com recursos naturais e humanos em abundância e potencial desperdiçados pela falta de visão, direção e a inconsequente polarização.

Vale refletir. E agir. O setor empresarial tem muito por fazer, apoiar e se envolver. Só não deve se omitir e depois lamentar.

Nota: De 26 de maio a 4 de junho estaremos em missão técnica visitando Coreia e participando da NRF Ásia, que acontecerá em Singapura. É um programa particularmente importante quando se considera que o mundo se reinventa e se movimenta ainda mais rápido nesses mercados. Maiores informações podem ser acessadas por clicando-se aqui.

Marcos Gouvêa de Souza, conselheiro do IDV, é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma MERCADO&CONSUMO.
Imagem gerada por IA.

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