No momento em que a taxa de desemprego do Brasil aparece no menor nível da história, cresce o número de empresários que têm relatado dificuldade para contratar e reter profissionais. A situação é justificada pelo aquecimento do mercado de trabalho e pela migração para empregos de maior remuneração e jornada de trabalho mais flexível.
O que aconteceu
Setores relatam escassez de mão de obra. As queixas envolvem a ausência de profissionais em diversos setores. Caroline Nogueira, diretora-executiva da rede de refeições corporativas Premium Essential Kitchen, classifica a situação como recorrente no setor de serviços, mas relata que o cenário foi agravado pelos hábitos desenvolvidos no início da década.
As pessoas encontraram empregos alternativos na pandemia e não estão mais buscando carreiras ‘engessadas’.
Caroline Nogueira, diretora da Premium Essential Kitchen
Estudos comprovam a situação do mercado de trabalho. Levantamento realizado pela Fecomercio-SP (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo) e pelo CCA (Conselho do Comércio Atacadista) indica que a falta de mão de obra é um problema encarado pelo setor. Os dados ilustram uma evolução tímida do número de funcionários, apesar do recente aquecimento do mercado de trabalho.
“Apagão” da mão de obra lidera o temor dos setores. Segundo pesquisa divulgada no início deste ano pela consultoria PwC, a falta de profissionais qualificados na indústria e no comércio preocupa 41% dos empresários. O percentual é superior aos temores relacionados a crimes cibernéticos (31%) e ao avanço da inflação (28%).
Maior escassez afeta as chamadas “vagas de entrada”. O primeiro emprego e os empregos para aqueles sem experiência no ramo de atuação são citados como o principal gargalo. Rodolpho Tobler, economista do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), afirma que o cenário esvazia, principalmente, as colocações de baixa remuneração e carga horária de trabalho elevada.
À medida que as pessoas conseguem outras ocupações um pouco melhores, elas tendem a não procurar tanto essas vagas [de elevada carga de trabalho e salários mais baixos].
Rodolpho Tobler, economista do Ibre/FGV
Tempo de permanência nos cargos também diminui. O estudo da Fecomercio mostra também que o período médio de permanência dos profissionais no setor atacadista reduziu 7% entre 2015 e 2024. A queda dobra entre os profissionais mais jovens, com idade entre 14 e 25 anos. “Eles não ficam mais nem um ano no mesmo trabalho”, observa Bruno de Souza Pinto, assessor econômico da associação.
O que motiva a escassez
Menor taxa de desemprego da história amplia leque de opções. A maior facilidade para encontrar uma nova colocação permite que os trabalhadores façam escolhas e abandonem os postos de trabalho sem temor. “As pessoas têm conseguido se realocar para um emprego melhor por vontade própria. […] Quando há uma geração de vagas muito grande, é natural que prefiram empregos que remunerem mais ou que ofereçam benefícios superiores”, afirma Tobler.
O pleno emprego é uma conquista para o país, mas, para o empresário atacadista, tornou-se também uma batalha diária encontrar e reter bons profissionais. O capital humano virou o grande diferencial competitivo.
Ronaldo Taboada, presidente do CCA
Profissionais procuram atividades com maior flexibilidade. A percepção é levantada por Rubens Batista, CEO do grupo atacadista Martins. Ele avalia que o cenário é relatado por todo o segmento. “Essa mudança de perfil profissional aumenta a concorrência pelos mesmos recursos e torna a atração e retenção mais desafiadora”, afirma. Ele diz atuar para ajustar os horários para “atrair, engajar e reter talentos”.
Escala 6×1 afasta os profissionais de determinadas funções. Tema amplamente debatido no Congresso nos últimos meses, a escala de trabalho com somente uma folga semanal é determinante para a fuga de cargos que exigem o trabalho aos finais de semana. Lucia Garcia, economista do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), afirma que o modelo de jornada representa o sacrifício em troca da perda de qualidade de vida. “São exigências que levam o trabalhador à exaustão”, lamenta ela.
Mentalidade dos profissionais mais jovens rejeita o regime CLT. A questão também é citada como uma das motivações para a escassez de mão de obra, principalmente para os que ingressam no mercado profissional. Lucia Garcia afirma que a situação é originada pelas reformas que flexibilizaram o vínculo celetista desde a década de 1990. “A CLT virou um guarda-chuva furado, porque não garante a aposentadoria dessa juventude, estende a jornada de trabalho, reduz remuneração e expõe o trabalhador a riscos físicos e psicossociais.”
Mudança de mentalidade atinge principalmente a população mais jovem. Os segmentos que mais sofrem com a escassez de mão de obra representam o início da carreira de muitos trabalhadores no Brasil. “Esse público hoje não se sente atraído pelo mercado de trabalho formal. Eles buscam mais flexibilidade de horário e o caminho do empreendedorismo”, reconhece Souza.
Os empresários estão perdendo margem e capacidade de manobra sobre a produção. Por isso, não conseguem remunerar bem e nem investir em adequação, treinamento e motivação para fixar os profissionais.
Lucia Garcia, economista do Dieese
Perspectivas para o futuro
Nível elevado dos juros aumenta expectativa de retomada da mão de obra. Com os juros básicos em 15% ao ano, o maior patamar em quase 20 anos, os especialistas avaliam que o aperto monetário vai prejudicar o mercado de trabalho. “A tendência dos próximos meses é observarmos a criação de vagas um pouco mais lenta, porque a economia deve esfriar também”, prevê Tobler.
Varejistas tentam parceria com o governo federal para resolver a situação. O Ministério do Desenvolvimento Social aposta no programa Acredita no Primeiro Passo para auxiliar as empresas que sofrem com a falta de mão de obra. Em setembro, o órgão firmou uma parceria com o IDV (Instituto para Desenvolvimento de Varejo) e o Grupo Magazine Luiza para disponibilizar os dados de inscritos no CadÚnico (Cadastro Único) e oferecer qualificação profissional aos profissionais de baixa renda.
Bares e restaurantes demonstram otimismo com a aproximação das festas. Com a expectativa de crescimento de 32% do fluxo de clientes, a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) afirma que 88% dos donos de estabelecimentos têm dificuldade para contratar. Para driblar a situação, eles apostam na qualificação dos trabalhadores, na flexibilização de horários e em aumentos salariais. “É melhor ter essa dificuldade do que ver faltarem clientes”, afirma o presidente da entidade, Paulo Solmucci.
Juntando o mercado de refeições, eu acho que conseguimos estabelecer um piso salarial maior para competir com a indústria e outros segmentos mais atrativos.
Caroline Nogueira, diretora da Premium Essential Kitchen
Por Alexandre Novais Garcia
Publicado no portal BOL / UOL Notícias
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