Ibovespa deve passar por ‘rotação setorial’

Ibovespa deve passar por ‘rotação setorial’

Em 2021 comércio eletrônico continuará forte, mas varejo físico, shopping center, educação e até bancos tendem a voltar ao radar.

Por Lucas Hirata e Marcelle Gutierrez, Valor — São Paulo

26/10/2020

Embora o mercado de ações ainda enfrente os efeitos da pandemia, os investidores já começam a vislumbrar uma nova dinâmica para 2021. Na avaliação de gestores ouvidos pelo Valor, o Ibovespa deve ver uma recuperação de setores que foram deixados para trás, principalmente quando comparados com a disparada de empresas de comércio eletrônico e exportadoras. O retorno gradual a uma certa normalidade deve favorecer uma rotação setorial, no qual comércio eletrônico continuará forte, mas varejo físico, shopping center, educação e até bancos tendem a voltar ao radar.

“A chance de rotação de setores é grande e vejo um rearranjo pós-covid. A gente vai ver quem são os perdedores e ganhadores após a pandemia”, diz Luiz Sedrani, diretor de investimentos da BV Asset.

Ele explica que tanto a economia brasileira como a de outros países devem passar por um processo de retirada de estímulos fiscais e de programas sociais colocados para fazer frente à pandemia, além da reabertura após medidas de isolamento social. Nesse contexto, será observada a reação ou não da atividade econômica. “O ‘paciente’ está sendo desentubado e neste processo será vista a reação da economia, seja do consumidor ou das empresas”, diz.

De fato, em 2020, os principais desempenhos do Ibovespa foram marcados pelos efeitos da pandemia no mercado. As exportadoras se beneficiaram do câmbio depreciado e de uma recuperação asiática mais rápida, enquanto as medidas de distanciamento social popularizaram ainda mais as compras on-line.

De acordo com cálculos do Valor Data, com base na composição atual do Ibovespa, o valor de mercado de ações do setor de papel e celulose cresceu 30,7% no ano até o fechamento desta segunda. Já o de siderurgia e mineração subiu 18,85% — bem melhor que o desempenho do Ibovespa como um todo, que perde cerca de 11% no período.

O grande destaque no ano é o de comércio eletrônico, cujas empresas viram seu valor de mercado aumentar no ritmo notório de 81% em 2020. Nesse ponto, vale destacar que Magazine Luiza e Via Varejo mais que dobraram o valor de mercado no período.

Esses resultados revelam o abismo deixado em relação a setores mais tradicionais do comércio e empresas que dependem mais da expansão da economia local. O valor de mercado do setor de shopping center caiu 42,6%. Já o do varejo mais tradicional, excluindo empresas de comércio eletrônico, teve alta de 3,02%. Vale dizer que o desempenho só não foi negativo por causa dos ganhos do Grupo Natura e da Raia Drogasil.

Outro segmento fortemente afetado pela pandemia foi o aéreo diante das restrições em viagens pelo mundo e, no caso da Embraer, pelo fim do acordo com a Boeing. Em 2020, o valor de mercado dessas empresas recuou 56,4%.

Para Sedrani, da BV Asset, comércio eletrônico continuará forte, mas educação, shopping center e bancos tendem a retomar. Já papel e celulose, mineração e siderurgia dependerão mais dos preços das commodities, em função da projeção de uma valorização menos acentuada do dólar sobre o real. “Tem setores subindo 40% e outros caindo 50% na bolsa. Foi um ano extremamente atípico”.

De acordo com Alexandre Sant’Anna, gestor de renda variável da ARX Investimentos, papéis relacionados à economia doméstica têm sofrido muito com o choque de demanda causado pela pandemia e ainda embutem cenários bem negativos. No entanto, as perdas devem ser revertidas daqui para frente à medida que a normalização da economia fique mais clara nos indicadores de atividade.

Ele explica que existem dúvidas no mercado sobre a trajetória da economia após o fim dos programas de auxílio emergencial do governo. No entanto, as ações de segmentos mais ligadas à economia doméstica — casos de varejistas de vestuário, administradoras de shopping center e distribuidoras de combustíveis — já estão muito descontadas.

“O que tentamos avaliar é o quanto do crescimento em 2021 pode decepcionar por causa do fim do auxílio emergencial. Existe a dúvida se o setor privado vai conseguir compensar os gastos públicos. Mas já tem muita coisa negativa embutida nos preços”, diz.

A ARX trabalha com um crescimento de 3% a 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2021 considerando o cenário de o governo encerrar o auxílio emergencial em 2020.

Já Eduardo Carlier, cogestor dos fundos de renda variável na AZ Quest, acredita que o gatilho importante para as ações que ficaram para trás na pandemia será a chegada da vacina contra a covid-19. Para ele, só assim aéreas, restaurantes e varejo físico serão beneficiados pela reabertura.

“A materialização da vacina vai se tornar um componente importante na discussão setorial para o ano que vem. Mas, claro, em um cenário de normalização e sem o risco fiscal [brasileiro] muito acentuado, como vimos nos últimos meses”, enfatiza.

Segundo ele, a gestora começa a olhar varejo físico, que não deve ter lucros “chamativos” no curto prazo, mas tende a se beneficiar da normalização e de ganhos de participação de mercado. “Estão em um momento ruim, mas voltam bem e ganham participação de mercado, porque as empresas listadas em bolsa são líderes em seus mercados. Mas claro se não houver uma segunda onda [de contágio pela covid-19]”.

Carlier acredita que uma “rotação setorial interessante” começa a acontecer no mercado, principalmente com o aumento da busca por ações do setor bancário com um cenário de equilíbrio após o aumento das provisões. “Se continuar a normalização após provisão, é um setor que tende a caminhar para o lado positivo”, diz.