SÃO PAULO - O medo de um aumento da inadimplência fez com que os bancos aumentassem as provisões, recursos para cobrir riscos, em fevereiro, segundo dados divulgados pelo Banco Central (BC). No total, as provisões subiram 16,9%, saindo de R$ 67,819 bilhões em janeiro, para R$ 79,247 bilhões em fevereiro deste ano.
Para Luiz Jurandir, consultor e palestrante da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), este caminho deveria ser inverso e os bancos brasileiros deveriam fazer como os bancos espanhóis. "Na Espanha se faz o contrário, as instituições aumentam as provisões quando não tem crise, para depois utilizar quando a crise chegar. A crise é um processo normal no mundo", afirma o consultor.
No caso do risco de crédito de nível AA, em que não há exigência de provisão, o valor destinado a esse fim subiu de R$ 214 milhões para R$ 3,475 bilhões. No caso do maior nível de risco, o H, a provisão subiu de R$ 37,308 bilhões para R$ 39,675 bilhões de um mês para o outro.
Segundo o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes, os bancos aumentaram essa reserva de recursos por conta do aumento da inadimplência e de uma resolução, definida no final do ano passado, que permitiu aos bancos ampliarem as provisões para crédito a níveis superiores ao mínimo exigido sem descontar esse valor adicional do Patrimônio de Referência. Com isso, as instituições não têm que reduzir os volumes de empréstimos. Lopes disse ainda que o aumento expressivo para a cobertura do nível AA ocorreu porque os bancos foram aumentando os recursos nos vários níveis e sobrou mais dinheiro para por no menor nível de risco.
Em fevereiro, a inadimplência para as famílias, considerando operações com atrasos superiores a 90 dias, aumentou de 8,2% para 8,3%, ou seja, apenas um ponto percentual, a maior desde maio de 2002, quando havia sido de 8,4%. No caso das empresas, subiu de 2% para 2,3%, a maior desde agosto de 2007 (2,4%).
"Este é um aumento natural por conta das crises de demissões que estão ocorrendo. Não creio em um aumento muito grande da inadimplência. Acho que o brasileiro esta aprendendo a guardar o seu dinheiro. Isso não é medo da crise e sim interesse em aprender onde estão aplicando seus recursos", explica Jurandir.
Segundo Lopes, houve uma elevação mais forte da inadimplência para as empresas, com sinais de acomodação para as famílias. Para Lopes, o motivo para que as pessoas estejam com dificuldades de pagar as contas é que as empresas e famílias estão com dificuldades na hora de rolarem os seus empréstimos realizados.
As operações de crédito com recursos livres para a pessoa física cresceram 1,2% (R$ 404 bilhões). Já para a pessoa jurídica este montante apresentou retração de 1,6% (R$ 464,8 bilhões).
As operações de crédito do sistema financeiro cresceram 0,1% de janeiro para fevereiro deste ano, saindo de R$ 1,229 trilhões, para R$ 1,230 trilhões. O saldo de crédito em recursos livres apresentou queda de 0,3%, passando de R$ 871,4 bilhões em janeiro para R$ 868,9 bilhões em fevereiro. Os recursos direcionados cresceram 1,2%, de R$ 357,7 bilhões para R$ 361,9 bilhões em fevereiro.
Os dados revelam que o setor de comércio (reunindo comércio varejista e atacadista) é o que mais tem sofrido com a restrição do crédito. Em fevereiro, o saldo dos financiamentos para esse setor, com relação ao mês anterior, sofreu queda de 2,9%.
Segundo analistas do Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), essa diminuição foi responsável pela restrição da capacidade de financiamento do consumidor, fator que contribuiu para redução das vendas.
Agência Estado