O varejo brasileiro sofreu o impacto da crise, claro. Mas nada devastador, nem houve taxas negativas de seu movimento real. O que houve foi apenas uma desaceleração do crescimento. Agora, tudo aponta para uma volta aos números positivos. E em breve.
Quando a crise financeira global começou, na segunda quinzena de setembro do ano passado, o comércio ia muito bem. A despeito da Newton Santos/Hype
derrocada do banco Lehman Brothers, nos Estados Unidos, que ruiu completamente e iniciou o processo, os comerciantes brasileiros comemoravam taxas positivas de 1,2% no volume de vendas e de 1,3% na receita nominal, tudo em relação ao mês anterior. Sobre o ano anterior, o Brasil verificava taxas de aumento de vendas de 9,4% - São Paulo estava melhor, 12,3%. No último levantamento do IBGE, no mês passado, o indicador era negativo, sim, mas a diferença era tão pequena que havia motivo para novas comemorações. Com quase um ano de crise, o comércio perdeu 0,2% em abril em relação a março. E no primeiro quadrimestre sobre igual período do ano anterior acumula incremento de 4,5% no volume de vendas. A variação acumulada nos últimos 12 meses foi de 7%. Uma comemoração só.
De acordo com o levantamento do IBGE, o conceito mais restrito do varejo - que não inclui os setores de veículos e motos e material de construção -, alcançou índice de -0,2% em relação a março. Já o comércio varejista ampliado, que engloba todos os setores, registrou variação de -4%, devido a desempenhos negativos dos segmentos isolados anteriormente e que registraram -5,6% e -3,5%, respectivamente. Nos resultados gerais, o acumulado no primeiro quadrimestre de 2009, frente ao mesmo período de 2008, alcançou incremento de 4,5% no volume de vendas. A variação acumulada nos últimos doze meses foi de 7%, taxa com tendência de declínio desde outubro de 2008, quando atingiu seu ponto máximo de 10,3%.
"É difícil fazer uma análise se não tivesse havido a crise global", diz Reinaldo Silva Pereira, economista do IBGE, da Coordenação de Serviços e Comércio (Cosec). "Sentimos um declínio nos índices, para várias atividades. Mas em 2009 algumas atividades já se mostram no mesmo patamar de antes de setembro de 2008".
Efeito Casas Bahia
É fácil exemplificar, segundo Silva Pereira: ele usa um estimador de base fixa, por meio do qual computa as variações. Os hipermercados em setembro de 2008 revelavam índice de 128,36; em março deste ano (sem contar abril e, portanto, o período da Páscoa, que distorceria os resultados), o índice chegava a 137,80. Os artigos de uso pessoal e doméstico estavam em 207,45 em setembro do ano passado e em 221,4 em março passado. Um dos setores que ainda não se recuperou foi o de móveis e eletrodomésticos: índice de 215,33 no mês de setembro de 2008 e que ainda não passou de 180,15 em abril último.
Há várias explicações, praticamente coincidentes na maioria das análises. O primeiro e mais determinante é o crédito, que ficou mais caro e escasso. As empresas de varejo tiveram de reduzir o número de prestações - o chamado "efeito Casas Bahia" (ajuste do número de prestações ao valor ideal para pagamento mensal). Há, também, a confiança do consumidor, que ficou mais cauteloso, o que influencia a decisão de compra. É o tipo de indicador que volta lentamente.
Números não mostram toda a situação
De acordo com a análise feita pelos especialistas do IDV - Instituto para Desenvolvimento do Varejo, que representa vários segmentos do varejo nacional, os resultados evidenciam que o comércio, salvo duas exceções (veículos e material de construção), mantém-se sem acusar retração significativa mesmo diante das adversidades causadas pela conjuntura internacional. Na comparação com o mesmo mês em 2008, o conceito mais restrito do varejo apresentou movimento em volume superior de 6,9% e obteve taxa negativa de 0,8% no conceito mais amplo. Em uma apuração mais detalhada dos resultados dos primeiros meses de 2009, o segmento de material de construção lidera a relação dos setores que mais regrediram, com -11,4%. Na comparação entre abril de 2009 e o mesmo período em 2008, o setor teve a significativa queda de -15,8%.
"O desempenho negativo, porém, não acumula os potenciais efeitos das recentes medidas do governo que propiciou a diminuição dos impostos e tem incentivado a construção de moradias", diz um relatório do IDV. Segundo a avaliação do instituto, há grande probabilidade de que nos próximos meses o setor venha a refletir as medidas adotadas.
O setor de veículos já teve aumento em março, 17,2% (março de 2009 sobre março de 2008). No mês de abril, houve uma retração de -11,3%. Como se lê esse número? Responde Reinaldo Silva Pereira, economista do IBGE: o governo concedeu a redução de IPI, mas deixou para prorrogar o prazo no final do período. Assim, os consumidores anteciparam suas compras. Quando veio o novo mês, as pessoas já tinham feito suas compras, o que justifica a retração ocorrida em abril.
Outro segmento que registrou queda expressiva foi o de tecidos, vestuário e calçados, que acumulou -7,5% no quartil. Por fim, aparece o grupo de móveis e eletrodomésticos, com índice de -1,6% no mesmo período. Porém, em outro extremo da cadeia varejista surgem resultados mais favoráveis, como os segmentos de equipamentos e material para escritório, informática e comunicação (18,1%), artigos farmacêuticos (12%), livros, jornais, revistas e papelaria (9,4%), e hipermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo, que obteve o índice de 6,5% e, por se tratar de setor do maior peso no varejo, é visto como uma variação altamente positiva.
"Da crise para cá, não tivemos números negativos na comparação com o mesmo período anterior. Houve uma desaceleração, sem dúvida, mas nem chegou a ser muito forte", diz Silva Pereira, do IBGE: "Existe uma defasagem. Quando se toma uma medida, como a que o governo tomou com a redução do IPI, leva certo tempo para que isso repercuta no comércio". Foi o que aconteceu entre 2002 e 2003, quando o comércio só se recuperou em 2004. Agora, o baque mais duro foi sentido no último trimestre de 2008. Janeiro já deu uma melhorada - o que refletia as vendas de fim de ano e, já neste ano, férias, Páscoa e Dia das Mães. No geral, segundo todas as análises (tanto a do IDV como a do analista do IBGE), o varejo brasileiro sofreu impacto da conjuntura externa e interna menos favorável. Mas isso não se traduziu em taxas negativas de seu movimento real. O que houve - ainda bem - foi apenas uma desaceleração do crescimento. Portanto, tudo aponta para uma volta aos números positivos. E em breve.
Bom sinal: consumidor brasileiro gasta mais
Estudo da Nielsen Brasil, empresa global de informações sobre consumo, mostra um sinal muito positivo sobre o comércio brasileiro. No primeiro trimestre do ano, em relação a igual período do ano anterior, o consumidor desembolsou 3,6% a mais com 44 categorias de bens de consumo de alta rotatividade (FMCG, na sigla em inglês). O aumento no gasto total foi impulsionado pelas categorias de limpeza caseira e higiene pessoal, que cresceram 12% e 7,5% respectivamente. A tendência é percebida em todos os níveis socioeconômicos, entretanto com expressivo destaque para as classes D+E -ou 36% da população domiciliar do País - que gastaram nominalmente 8% mais, um índice acima da inflação registrada no período.
A amostra está desenhada para representar exatamente as sete áreas Nielsen e apresenta esta cobertura: 80% da população domiciliar do País; 93% do índice de potencial de consumo; reporta o universo de aproximadamente 36,9 milhões de domicílios.
Segundo Olegário Araújo, gerente de Atendimento ao Varejo da Nielsen, o gasto total dos shoppers (a pessoa que define e decide as compras) ao longo dos primeiros três meses deste ano foi maior, pois esses compradores visitaram mais vezes os pontos de venda: "É importante ressaltar que o momento econômico não alterou a tendência geral e, apesar de cada ida ao ponto de venda (PDV) representar um tíquete médio 2% menor, a realização de compras mais freqüentes (+6%) acabou gerando um gasto médio maior". Olegário salienta que esta redução do tíquete não é perceptível para as cestas de Higiene e Limpeza Caseira: "Além do shopper ir mais vezes ao PDV para comprar estas categorias, o desembolso foi maior a cada compra".
Em relação às compras nos canais nos primeiros três meses deste ano, os maiores destaques são porta a porta e perfumarias. Embora esses canais importem menos no total das compras, o shopper aumentou a frequência de visitas, por meio de mais compras de reposição. Um ponto de destaque de ambos os canais é a diferenciação em atendimento e sortimento. Na primeira modalidade, o gasto foi 16,4% maior e na segunda, 6,4%.
"Pode-se atribuir este incremento - diz Olegário - tanto pelo maior número de compras em perfumaria e porta a porta, como pelo maior tíquete de cada compra. O porta a porta já representa para os shoppers 14% de todo o gasto com a cesta de higiene pessoal".
O levantamento completo pode ser encontrado em www.br.nielsen.com.
Outro sinal: o número de compradores é maior
Em uma pesquisa de campo realizada junto a 500 consumidores da cidade de São Paulo, no período de 12 a 19 de março de 2009, o Provar - Programa de Administração de Varejo da Fundação Instituto de Administração (FIA), indagou aos entrevistados, em pesquisas realizadas na rua, sobre os produtos que eles têm intenção de comprar nos próximos três meses. Foram investigadas as expectativas com relação à compra destas categorias de produtos: linha branca; produtos eletroeletrônicos; telefonia e celulares; informática; eletroportáteis; automóveis e motos; cine e foto; material de construção; e cama, mesa e banho.
Os resultados indicaram que o percentual de pessoas que não pretendem comprar foi de 27,6%, menor do que a taxa pesquisada no primeiro trimestre de 2009, que foi de 33,4%, e também inferior a alcançada na mesma época do ano passado, de 36,8%. Nesta edição, entre os itens da lista de produtos pesquisados com maior intenção de compra destacam-se o segmento Informática, com 15,0%, seguido por Linha Branca (12,8%), Cine e Foto (12.4,0%) e Móveis, com 10,0%. As categorias Material de Construção e Eletroportáteis foram as que mais perderam participação na intenção de compras neste trimestre, com relação ao trimestre anterior. Destaca-se, neste segundo trimestre do ano, o aumento da intenção de compras para as categorias Informática, Linha Branca, Móveis, Eletroeletrônicos, Automóveis e Motos e Telefonia e Celulares. Três categorias - Eletroportáteis, Material de Construção e Cine e Foto - apresentaram queda comparativamente ao primeiro trimestre de 2009.
Um outro aspecto levado em conta no estudo é a utilização do crediário para a aquisição de bens e serviços e a principal categoria relacionada pelos consumidores foi a Automóveis com 92,1%, seguida por Linha Branca, com 75,0% e Móveis, com 72,0%. Os consumidores que pretendem financiar total ou parcialmente um automóvel representam 92% do total.
O varejo do Brasil é atraente para investidores
Pesquisa da consultoria A. T. Kearney, divulgada no mês passado, mostra que o Brasil está bem quando se trata de varejo. Ocupa a oitava posição no ranking global de oportunidade de investimento para empresas da área. E é o primeiro no mundo em atração no setor de vestuário. Os dez primeiros colocados do ranking em 2009 são Índia, Rússia, China, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Vietnã, Chile, Brasil, Eslovênia e Malásia. O Brasil entrou na lista dos trinta países mais atraentes para investimento de varejo em 2005, na 29ª posição. Subiu bastante em apenas quatro anos.
Com isso, o Brasil vive uma segunda onda de investimentos. Na primeira, houve associações entre empresas do exterior com brasileiras, como a rede francesa Casino com o grupo Pão de Açúcar. E houve uma série de compras de imóveis nas grandes cidades. Nesta segunda onda, as oportunidades estão em cidades menores, mas nem tanto. Segundo aponta Celso Durazzo, diretor da consultoria A. T. Kearney, há cerca de vinte cidades brasileiras com mais de um milhão de habitantes.
O Brasil lidera o ranking do vestuário por igualar-se a países desenvolvidos: 40% das vendas de vestuário no País são feitas com cartão de crédito, patamar similar a de Estados Unidos e Grã-Bretanha. As duas principais redes do País, Riachuelo e C&A, já emitiram mais cartões próprios de crédito que as operadoras Visa e Mastercard.
Outros pontos positivos, aponta a consultoria, são a população jovem, que consome muita roupa - mais de 60% dos brasileiros estão abaixo dos 30 anos - e o gasto médio com vestuário é de cerca de US$ 450 por ano, valor seis vezes superior ao da China. Mas há outras oportunidades no varejo do País: bons exemplos são os setores de eletrodomésticos e de alimentos e bebidas.