Em dois momentos na semana passada o varejo brasileiro, através do Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), prestou contas sobre seu comportamento diferenciado no período marcado por uma das maiores crises econômicas globais.
Em reunião com o Presidente Lula e o Ministro da Indústria e Comércio, Miguel Jorge, em Brasília na quinta-feira, e num encontro com o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, em São Paulo na sexta-feira, o setor mostrou que tem sido o mais importante empregador formal privado do país, com 15,2% do total, e tem contribuído de forma decisiva para minimizar os impactos dos problemas externos na economia brasileira.
Nos últimos 12 meses o varejo foi o setor privado que fez mais contratações formais, gerando 208 mil empregos, segundo os dados do Caged. Somente o governo e os órgãos públicos geraram mais empregos formais.
Mas a contribuição do varejo brasileiro para o desenvolvimento econômico vai mais além. Desde 2004 o setor, pelos dados da PMC do IBGE, tem tido um comportamento acima do desempenho do PIB brasileiro, sendo responsável por melhorar o resultado geral da economia. Até 2003 o comportamento do segmento varejista era inferior ao desempenho do PIB, que era então alavancado principalmente pelas exportações. Com a expansão do consumo interno das famílias, impulsionado pela melhoria da renda, do emprego, pela expansão do crédito e o forte crescimento do Índice de Confiança do Consumidor, até outubro de 2008, o varejo teve um crescimento expressivo consecutivo a cada ano. No período de 2006 a 2008 a expansão média ficou em torno de 8% em termos reais ao ano, dentre as maiores no mundo.
E mesmo no período mais recente seu comportamento tem sido diferenciado. No primeiro quadrimestre de 2009 o varejo brasileiro ampliado, também pelos dados do IBGE, cresceu 2,5%, sendo um dos poucos países no mundo, ao lado de Austrália, Índia e China, com comportamento positivo. Que se torna ainda mais relevante quando se verifica que, no mesmo período, o varejo decresceu 9,1% nos Estados Unidos, 1,2% na zona do Euro e 2,6% no Chile.
Essa importância crescente do setor varejista brasileiro não é apenas resultado do crescimento do consumo interno. Ela é produto de uma profunda transformação e organização estrutural que tem ocorrido no mercado e no próprio setor que tenderá a continuar nos próximos anos.
No lado do mercado existe um claro processo de maior formalização, como consequência de um forte aperto fiscal e tributário, que faz migrar para o lado mais claro da economia negócios e operações que competiam de maneira menos ética com as empresas totalmente formais. E isso requer a incorporação de melhores práticas, processos e recursos técnicos e humanos como forma de melhoria da eficiência e produtividade, sem o que as empresas não sobrevivem ao mercado mais competitivo.
E muito ainda poderá acontecer, pois o varejo brasileiro formal representa apenas 15,5% do PIB, quando em economias equivalentes esse percentual é muito maior. Nos Estados Unidos representa 28,2%; na Espanha 33,4%; no Reino Unido 32,9%; na Itália 31,3%; na França 30,5%; na Alemanha 24,9%; na União Européia toda a média é de 30,8%; e no Japão, 26,7%. Isso significa que o processo de maior formalização no setor e no país deverá contribuir para o aumento da participação no PIB, e não seria surpresa que nos próximos dez anos o varejo brasileiro chegue a uma participação de 20% pelo menos. Mas o próprio setor cresceu e amadureceu muito nos últimos anos, em especial como uma das mais saudáveis consequências da redução e estabilidade da inflação, que colocou foco, recursos, competência e visão das empresas varejistas na estruturação e crescimento do próprio negócio. De outro lado o próprio crescimento do mercado interno trouxe corporações globais altamente eficientes e detentoras das melhores práticas, que também foram copiadas e adaptadas às características dos concorrentes locais, gerando um desejável alinhamento e amadurecimento competitivo que, no final das contas, acabou beneficiando o consumidor final e o país como um todo.
À medida que a economia passou a ter um comportamento mais previsível, a gestão do negócio, tanto para as empresas nacionais como para as globais que para aqui vieram, pode mudar suas prioridades da sobrevivência em clima de elevada inflação para o desenvolvimento das atividades-fim. E as melhores práticas internacionais no setor foram adaptadas, mesclando-as com a agilidade e flexibilidade que formavam o principal legado do período de instabilidade, quando esses fatores foram elementos críticos para a sobrevivência das empresas do setor.
O resultado foi um amadurecimento e crescimento estruturado muito rápido, que colocou o varejo brasileiro, em diversos setores, em condições de igualdade com as melhores práticas internacionais e, além disso, transformou-se em benchmarking no mercado global.
Alguns exemplos, apenas das empresas brasileiras, mostra como o varejo nacional se transformou em referência internacional.
A estratégia e competência da gestão de crédito para baixa renda das Casas Bahia; o formato de loja virtual do Magazine Luiza; os formatos de lojas de supermercados do Pão de Açúcar e, mais recentemente, a estratégia multicategorias da marca própria Taeq; os serviços financeiros integrados com operações de varejo de empresas como Riachuelo e Quero-Quero; os formatos compactos de lojas de material de construção da Dicico; os formatos de lojas para criação de canais exclusivos de marcas como Via Uno, Hering, Marisol e PUC, entre outros. O Boticário, que criou a maior rede mundial de franquia de lojas de cosméticos; ou a Cacau Show, que criou o equivalente para lojas de chocolates. A Natura, que tem uma das maiores operações mundiais em vendas diretas, agora também multicanal. O modelo de negócio da DPaschoal, mesclando lojas próprias e autorizadas para atuação em mercados com menor potencial. A integração indústria-varejo multibandeiras do grupo de calçados Paquetá. A central de negócios patrocinada das lojas Smart do grupo atacadista Martins.
Seguramente um aprofundamento da análise vai mostrar muitos mais casos que já são ou em breve se tornarão modelos estratégicos inovadores no varejo global.
Foram esses alguns dos tópicos que foram discutidos, analisados e mostrados, prestando contas de um lado, mas pleiteando, principalmente, mais espaço, atenção, recursos e apoio para a continuidade de crescimento de um setor que soube se reinventar, até na forma de sua representação, e tem uma consciência cada vez maior do potencial de sua atuação em benefício do país como um todo.