O varejo é um dos poucos setores no Brasil que nunca teve qualquer forma de proteção ou restrição à concorrência ampla e global. Diferentemente de vários países que criam mecanismos de proteção e salvaguarda para os operadores locais, no Brasil os varejistas sempre puderam contar somente com sua própria competência, visão e recursos para sobreviver e expandir.
Se de um lado isso criou limitações para a criação de redes internacionais a partir do país e, num processo de seleção natural, tirou do mercado redes menos competentes, de outro, é preciso reconhecer, desenvolveu um setor maduro, competitivo e auto-sustentável.
Os casos mais emblemáticos de proteção a operadores varejistas locais, neste momento, são China e Índia. Nos dois países, alvo do interesse global por conta do tamanho do mercado e do potencial de consumo futuro, com população superior a um bilhão de pessoas, os respectivos governos criaram e sustentam barreiras à entrada de conglomerados varejistas globais, de maneira a permitir o desenvolvimento de competência dentre os operadores e redes locais, evitando expô-los à concorrência direta de grupos com maior know how, tecnologia, capital e poder de negociação e compra junto aos fornecedores de marcas globais que também estão migrando para esses mercados.
O varejo considerado moderno, aquele que privilegia os direitos, os serviços, a conveniência e o interesse do consumidor final, nesses dois países, representa menos do que 3% do varejo total, inibindo a evolução mais rápida e o nível de concorrência entre os operadores, em sua maioria esmagadora representados por mais de 12 milhões de lojas no estilo pops and moms, ou seja, onde a família toca, de forma limitada e amadora o negócio. E, não raro, dormem, vivem e operam no mesmo local.
Na China a demanda internacional e o interesse no aumento significativo das exportações foi o elemento de negociação que gradativamente foi abrindo o mercado local, como contrapartida ao crescimento das compras dos conglomerados globais no mercado chinês. Mas Wal Mart, Carrefour e Tesco tiveram que negociar loja a loja, mercado a mercado, a concessão da autorização para abertura de novas lojas.
Na Índia as restrições ainda persistem em escala expressiva, sendo que varejistas globais não podem deter o controle de operações naquele mercado, a menos que sejam monomarcas, o que favorece a expansão via franchising. Essa é a razão pela qual Wal Mart, num longo processo negocial, iniciou suas operações por lá na forma de atacado, vendendo para revendedores, pequenos e médios comerciantes, num caminho sinuoso para chegar ao varejo e ao consumidor final.
Mas no Brasil tudo isso foi muito diferente.
O mercado sempre esteve aberto, não regulamentado, e os varejistas tiveram que se virar com seus próprios recursos e limitações. Em especial as de natureza financeira e cultural, pois a grande maioria das empresas sempre foi de origem e gestão familiar e demandou muito tempo para que amadurecessem em suas práticas, conceitos e modelos de negócio, especialmente por conta da instabilidade econômica e financeira que se constituía num limitador natural ao pensamento mais ambicioso e estratégico. Com poucas exceções, como Pão de Açúcar, Boticário, D Paschoal, Marisa, Drogasil, Panvel, Riachuelo, C&C, Paquetá, Saraiva, Magazine Luiza, Casas Bahia e outros, as empresas varejistas de origem local, enfrentaram enormes dificuldades para amadurecerem em seu modelo e tornarem-se grandes e competitivas organizações, com gestão profissional e orientada para o longo prazo. E assumirem sua importância e representatividade econômica e social.
E, além disso, disputando o mercado com os maiores conglomerados globais, a eles associados ou individualmente, mas focando nos interesses e demandas dos consumidores, por sua vez também cada vez mais maduros e demandando mais por menos de maneira crescente.
Como parte desse processo de evolução, o varejo moderno que opera no Brasil, de empresas de origem local ou os grupos internacionais, está indo à luta, reivindicando maior atenção, respeito e apoio. Em especial ao setor formal desse varejo pelo que representa como segundo maior empregador, pelo volume de impostos arrecadados, pelas práticas de gestão modernas e éticas e pelo que têm contribuído para o amadurecimento de todo o mercado.
E algumas mudanças, ainda que timidamente, começam a acontecer.
Na esteira do caminho trilhado pela indústria automobilística o varejo de eletrodomésticos recentemente obteve a redução do IPI, permitindo uma redução dos preços ao consumidor final, imediatamente repassada, com reflexos diretos na venda, o que certamente significará manutenção, ou até mesmo, ampliação dos planos de expansão de lojas.
O varejo de materiais de construção também obteve recentemente a revisão dos impostos incidentes, permitindo a recuperação das vendas, que vinham se reduzindo desde que o clima de incerteza se abateu sobre o mercado.
Ambos os setores se inspiraram em seus pleitos no que, de forma precursora e profissional, vem sendo feito pela indústria automobilística, com cinqüenta anos de experiência, que consegue transformar suas dificuldades setoriais em problemas nacionais.
Mas a fórmula já é conhecida e consagrada.
Reduz-se os impostos, a indústria e o varejo comungam seus esforços na ativação de vendas e o resultado é o aumento do mercado potencial e, conseqüentemente, o aumento do emprego, do número de lojas, os impostos recolhidos e do crédito concedido e, no final da cadeia, a ativação econômica no setor. Só é cego quem não quer enxergar.
Talvez o exemplo mais eloqüente na situação presente do Brasil tenha sido o que foi feito no setor de computadores. A conjugação virtuosa da redução de impostos e os esforços conjuntos da indústria e do varejo, tiveram a virtude de permitir crescimentos da ordem de 20 a 30% consecutivamente nos três últimos anos e que, são menores em 2009, mais ainda assim, quatro vezes a média do varejo brasileiro.
A voz do varejo formal e maduro brasileiro se faz ouvir de forma cada vez mais forte.
Cobrando mais bom senso e responsabilidade do Congresso, pela presidente do IDV - Instituto para Desenvolvimento do Varejo no Brasil, Luiza Helena, pela negociação de financiamento direto ao varejo junto ao Banco Central, pela ampliação da redução dos impostos em outras categorias de produtos, pela redução das barreiras à importação de produtos em benefício dos consumidores, pela equidade de condições para financiamento pelo BNDES para empresas com capital 100% de controle nacional e outras com participação estrangeira e pela pressão para redução dos custos de financiamento ao consumidor final, com aprovação do cadastro positivo de crédito.
Também foi iniciativa do varejo formal, através do mesmo IDV, o pleito por uma política nacional para o setor, estimulada pelo que existe por iniciativa do governo na área industrial, que criasse um projeto estratégico para as áreas de comércio e serviços. É preciso que a proposta foi imediatamente abraçada pelo Ministério da Indústria e Comércio, pelo Ministro Miguel Jorge.
Da mesma forma como o fez o Ministério da Fazenda e o Banco Central, quando as demandas foram justificadas pela contribuição que esse conjunto de medidas teria para o país.
Do lado do varejo, a sua parte tem sido feita.
Com constantes investimentos em infra estrutura, tecnologia e logística. Com a continuidade da confiança na economia e no mercado, mantendo a expansão do número de lojas e gerando emprego, apesar do desestímulo e do quadro adverso. Revendo linhas, adicionando serviços, mantendo a propaganda e a promoção.
Um setor que foi amadurecido num dos quadros econômicos mais instáveis do mundo, com uma economia operando com as mais altas taxas reais de juros, sem nenhuma legislação restritiva e aberto à ampla e irrestrita competição, sem nenhuma rede de proteção, o varejo formal brasileiro apanhou, sofreu e amadureceu, por conta dos seus próprios méritos.
É tempo de ser ouvido e respeitado por sua inegável e competitiva contribuição. E agora decidiu ir a luta.
E é o país e o consumidor só têm a ganhar.