A decisão unânime do Copom do Banco Central pela elevação da taxa de juros em 0,5%, sob o ponto de vista de promover a retração do consumo e evitar um eventual repique inflacionário, é inócua, inoportuna e só beneficia o sistema financeiro, como se o setor precisasse de algum apoio adicional para melhorar seus excepcionais resultados.
O que tem contribuído para o crescimento do consumo, em especial nos bens duráveis, é a oferta de crédito, considerados o volume disponível e os prazos de financiamento. As taxas de juros, para a maioria esmagadora da população brasileira, são uma mera referência não avaliada no processo de decisão de compra. E é essa grande massa de novos consumidores, em especial dos segmentos B baixo, C e D, que tem contribuído para a expansão do varejo, em ritmo quase duas vezes superior ao crescimento do PIB.
Pesquisas disponíveis mostram que é muito pequena, quase irrelevante, no conjunto da população, a consciência sobre a taxa de juros no crédito tomado pelo consumidor final. Para a grande massa o raciocínio é prático e direto, na linha do "se couber na renda mensal, vamos em frente". O aumento das taxas de juros para esse consumidor só vai aumentar o preço final pago, sem inibir em nada o consumo.
É importante ressaltar o descasamento existente entre a taxa Selic e as taxas praticadas no crédito ao consumo é enorme. Como exemplo, as taxas de juros mensais de 9,5% praticadas no crédito rotativo dos cartões de crédito e a atual taxa anual Selic, de 11,75%.
Relevante também lembrar que o crédito equivale a 34,9% do PIB no Brasil, o que é significativamente baixo quando comparado com outras economias, como Estados Unidos, com 115%; França, com aproximadamente 87%; ou Chile, com praticamente 85%.
Em 2007, enquanto o PIB crescia 5,3%, o varejo evoluiu 9,6%, liderado pelos segmentos de veículos, informática, eletrônicos, eletrodomésticos, móveis e materiais de construção. Os setores de alimentação e vestuário ficaram abaixo do crescimento médio.
Uma das principais motivações da elevação da taxa de juros teria sido a inflação do setor de alimentos, que, como setor de varejo, tem crescido abaixo da expansão geral do segmento comercial. Durante todo o ano de 2007 e nos primeiros meses de 2008 o setor de alimentos evoluiu menos do que outros setores, pela competitividade existente e porque parcela expressiva da renda dos consumidores está sendo deslocada para a compra financiada de veículos, eletrodomésticos, informática e móveis.
Além disso, a questão da inflação de alimentos é um processo global, alimentado pelo aumento da demanda mundial, em especial nos países emergentes, e mais a decisão norte americana de desviar parte da produção do milho, por exemplo, para a produção de etanol. Processo que, seguramente, não será alterado pelo aumento das taxas de juros no Brasil. O aumento dos preços de alimentos nos Estados Unidos em 2007 foi de 5,3%, o maior desde 1990 e mais do que o dobro dos 2,4% de 2006.
Outro elemento que está impactando a economia global, aumentando de forma generalizada custos e elevando preços no varejo, é o aumento do preço do petróleo, que era de US$ 61 em 2006, saltou para praticamente US$ 100 em 2007 e neste início de 2008 se aproxima de US$ 114, em parte como resultado da desvalorização mundial da moeda norte-americana. A elevação da taxa de juros no Brasil vai alterar essa tendência?
No momento em que o País vive um momento quase mágico de conjugação positiva de fatores, com ampliação do crédito disponível para consumo (que ainda permanece muito abaixo dos padrões mundiais); melhoria da renda das famílias; e alta do nível de emprego e do índice de confiança do consumidor, o efeito prático da elevação das taxas de juros não será reduzir o consumo, retraindo a demanda e inibindo a inflação, mas sim encarecer os investimentos, num momento que seria importante estimulá-los para aumentar a oferta interna e não pressionar mais a balança comercial.
De prático, o aumento das taxas de juros deverá inibir ou desestimular investimentos no setor produtivo, onerar os investimentos irreversíveis, estimular a importação, aumentar a dívida pública e melhorar ainda mais os resultados do setor financeiro.
Sempre se poderá considerar que essa elevação é preventiva e única arma disponível para conter a expansão da demanda mas, no momento em que o País deslancha em direção ao crescimento auto-sustentável e próximo do estágio de investimento recomendável, estamos acionando os reversores em plena decolagem. Vale lembrar que as economias emergentes, como Índia, Rússia, China, África do Sul e Turquia, têm apresentado crescimento econômico consistente e muito superior ao do Brasil nos últimos anos.
O momento não podia ser mais inadequado para o aumento das taxas de juros, numa fase de expansão de consumo e importância de estímulo ao investimento produtivo para aumento da oferta interna e manutenção desse processo virtuoso que a economia vive, depois de anos de sacrifícios e tropeços.
É clara a mensagem ao decidir por unanimidade pela elevação das taxas de juros.
Ser feliz no Brasil é privilégio para poucos segmentos, seguramente os mais organizados e estruturados em sua capacidade influenciadora, o que não é, definitivamente, a condição do segmento varejista. Para todos os demais, temos que temer sermos felizes, pois os vigilantes de plantão estão aí para tolher e conter essa emoção.
Marcos Gouvêa de Souza, diretor-geral da GS&MD