De forma míope, toda vez que o governo pensa em incentivar o
investimento e aumentar emprego, edita alguma medida em benefício da indústria,
como fez ao anunciar benefícios fiscais equivalentes a R$ 1,7 bilhão por ano,
atendendo pleito no Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial.
Os maiores empregadores no País já não estão na indústria, mas sim nos
setores de construção civil e comércio. Apesar de, segundo estudo recente do
IBGE, 72,8% dos empregos na construção civil serem informais, como parte do
contingente de 9 milhões de empregos nessa situação em todo o Brasil.
Hoje um varejista, como o Grupo Pão de Açúcar, emprega quase tanto
quanto toda a indústria automobilística nacional, por conta do nível de
automação e robotização existente nesse setor. No setor bancário, a greve
nacional pouco afetou o País, pois o grau de automação existente permitiu que a
maior parte das atividades continuasse operativa.
Na média nacional, o comércio varejista emprega 4,1 funcionários em cada
um dos mais de 1,1 milhão de estabelecimentos, de acordo com projeção da
Pesquisa Anual do Comércio do IBGE. As 25 empresas associadas ao recém-lançado
Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), em suas 6.000 lojas, empregam
em média 50 funcionários por loja.
No entanto, quando pretende aumentar o emprego formal, novas medidas são
propostas na forma de incentivo ao setor industrial.
Em termos atuais, se existe interesse na criação de empregos formais no
País, o governo deveria concentrar mais atenção no estímulo ao crescimento e
expansão do setor comercial varejista, especialmente o estruturado e formal.
Não só no aumento do número de lojas das maiores organizações comerciais,
aquelas que empregam o maior contingente, mas também no estímulo à formação das
Centrais de Negócios no varejo, reunindo e integrando operadores independentes,
criando alternativas para expansão desse mercado, através da melhoria de sua
capacidade competitiva.
Segundo recente estudo publicado durante o Encontro Nacional de Centrais
de Negócios (Enacen), realizado em maio deste ano em São Paulo, esse setor no
varejo já reúne perto de 11 mil lojas e emprega 120 mil funcionários, com média
de quase 11 funcionários por loja, nos segmentos de supermercados, material de
construção, farmácias, lojas de móveis, padarias, etc.
O estímulo à estruturação e desenvolvimento das Centrais de Negócios,
além de criar melhores condições competitivas para os comerciantes
independentes, permitiria, pela adoção de melhores práticas comerciais e
operacionais, que esses varejistas pudessem aumentar o número de empregados,
como já acontece. É bem verdade que nem sequer existe um Conselho Nacional de
Desenvolvimento Comercial, nos moldes da CNDI, que possa atuar de forma mais
estruturada na reorientação e apoio ao governo no encaminhamento de propostas
para incentivos ao setor varejista. E como quem não chora não mama...
Seja através do estímulo à continuidade do crescimento das redes
varejistas estruturadas, maiores empregadoras formais de mão-de-obra por loja,
seja através do estímulo ao desenvolvimento de Centrais de Negócios no
comércio, se de fato o governo tem real interesse em contribuir para a expansão
do emprego e o crescimento do mercado interno, deveria prestar mais atenção ao
varejo, que apresenta o maior potencial de geração de novos empregos no País.
Já tem muito recurso disponível para corrigir a
histórica miopia.