Artigos Artigos

28/10/2005 |

Na vanguarda do atraso

28 de Outubro de 2005 - Domingo, 16h30. Já se passaram quase seis horas desde que abriu e o centro comercial só irá fechar depois das 22h. O estacionamento já não tem lugar para mais nenhum carro.

No Shopping Mega, parceria entre o governo russo e um grupo privado, ancorado pela francesa Auchan, a holandesa C&A, a sueca Ikea e com operações do norte-americaníssimo McDonald's, as italianas Terranova e Climona, as espanholas Mango e Zara, o home center alemão Obi, as inglesas Esprit e Mothercare, a dinamarquesa Bodum e mais de uma centena de lojas locais, o número de pessoas circulando, olhando e comprando é absolutamente assustador - para não dizer desencorajador.

No hipermercado Auchan, as filas para passar no caixa desestimulam o mais compulsivo consumista. E já faz três anos que permanece assim.

O "boom" de consumo na Rússia contribui para um expressivo crescimento do emprego, elevação dos salários e expansão da própria economia, apesar dos 12% de inflação previstos para este ano.

Fico imaginando que qualquer um na Rússia que propusesse o fechamento dos shopping centers, hipermercados e lojas de departamentos aos domingos, sob o pretexto de proteger o pequeno comércio, seria literalmente deportado, talvez para a Sibéria, neste caso exilado, por estar na contra-mão do desenvolvimento e na vanguarda do atraso.

Pois é exatamente isso que está em discussão neste momento em São Paulo. Contra os interesses de consumidores, cada vez com menos tempo; dos comerciários, que precisam do emprego; do mercado, que não pode abrir mão desse volume de vendas; e do próprio País, que não deve e não pode andar para trás, há quem proponha o fechamento de shoppings, hipermercados, lojas de material de construção e de departamentos aos domingos, sob a alegação que eles impactam o pequeno comércio, que se veria desprotegido ante a melhoria das condições de compras oferecidas ao consumidor por essas outras lojas.

No mundo todo, incluindo Alemanha, Dinamarca, França e Itália, se discute, nesse momento, a ampliação do horário do comércio pela consciência de que fechar lojas seria um contra-senso, eliminando empregos.

Ao consumidor sempre, e cada vez mais, será dado o direito de comprar de diversas formas, seja com um clique pela internet, pelo telefone fixo ou celular, por catálogo, via visita domiciliar ou venda direta. Mas somente
a ele cabe esta escolha.

O papel regulador deve se preocupar em não favorecer o crescimento do emprego informal, em detrimento do emprego formal, proporcionado pelo varejo regular e formalmente estabelecido, que paga impostos.

Mostrando bom senso e sensibilidade, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, vetou a proposta apresentada, convencido de sua obtusidade. De forma objetiva, acatar a idéia significaria eliminar empregos no setor comercial, em um País que não pode se dar o direito de estagnar.

Talvez fosse interessante que proponentes de tão descabidas idéias passassem um tempo em Moscou ou São Petersburgo, na nova Rússia, vibrante e orientada para o crescimento, para deixarem de ser, de uma vez por todas, os arautos de um Brasil arcaico, que tem medo de se lançar rumo ao futuro e atender à sua vocação para o desenvolvimento sustentável.

Marcos Gouvêa de Souza - Diretor geral da Gouvêa de Souza & MD, empresa associada ao Instituto para o Desenvolvimento do Varejo (IDV).