Senhoras e senhores.
Caros amigos.
Boa noite.
Quero cumprimentar as empresas vencedoras do Top de Maketing 2005 da ADVB e
parabenizar o empresário Jorge Gerdau
Johannpeter pelo troféu Peter Drucker.
Sinto-me lisonjeado com a distinção que a ADVB me oferece - Personalidade de Vendas do Ano.
Devo confessar que a deferência me encheu de orgulho e me fez pensar muito.
Como personalidade de vendas, o que gostaria de vender para vocês?
Diante do panorama inquietante do país - da grande falta de valores, miséria,
violência e indecência na política - vislumbro uma única reação possível e
urgente:
apostar nos princípios
e valores que pautam nossas vidas pessoal e profissional, hoje suplantados
por atitudes e práticas distorcidas.
Nós não compactuamos com essa realidade.
Precisamos
e devemos mudar.
É isso que quero vender hoje aqui: Um artigo que anda
escasso no cotidiano brasileiro, valores
fundamentais que nos fazem falta, pois dão sustentação à verdadeira
democracia.
Como vivemos em um país imenso e temos muitos "Brasis", precisamos ter um
mínimo de valores comuns - como ética,
decência, veracidade, honestidade, justiça - para estabilizar nosso
presente e construir um futuro digno para todos.
Quais os valores da sociedade em que vivemos? Como se distinguem?
Parece que já não sabemos diferenciar
valor de contra-valor na sociedade permissiva e passiva de hoje.
O aviltamento dos padrões éticos, a falta de
legitimidade das instituições e sua crescente deterioração e a falta de punição
aos que legitimam os contra-valores minam e paralisam nossa capacidade de
reação.
Estamos todos anestesiados.
Mas se quisermos - e queremos, com certeza - viver em um país sério e justo
precisamos nos impor e restaurar nossos
valores.
Liberdade, justiça, honestidade, ética,
respeito, transparência, dignidade, bem estar social. São valores.
Injustiça, desonestidade, deslealdade, oportunismo, corrupção, esperteza. São
contra-valores.
Quem vai ganhar esta batalha?
A crise política brasileira dos últimos meses é a maior prova de que
vivemos uma carência enorme de valores.
Fatos recentes evidenciam que perdemos o
bom senso e a noção de justiça e de ética.
Os escândalos, a corrupção, o mau uso de verbas e o comportamento de muitos
homens públicos geram ainda mais incertezas.
Dora Kramer, articulista do jornal O Estado de São Paulo, comentou em 22
de outubro a decisão do Supremo Tribunal Federal de soltar Paulo e Flávio
Maluf.
O que mais a intrigou foi a declaração do ministro Carlos Velloso que "ficou sensibilizado pelas precárias
condições em que pai e filho estavam presos".
Delegacias e penitenciárias estão cheias de homens e
mulheres que cumprem pena em péssimas condições. Por que o sofrimento dos
Maluf comove mais?
É bom lembrar ao ministro que esse pai, Paulo Maluf, é investigado pelo desvio
de um bilhão de dólares do país, ou
2,5 bilhões de reais, dinheiro público que daria para construir mais
de 150 hospitais e salvar milhares
de vidas.
Se cada um desses hospitais atendesse 200 pessoas por dia, 10 milhões de pessoas seriam beneficiadas anualmente.
Em editorial de 21 de outubro, O Estado de São Paulo comentou o comportamento
do presidente do Supremo Tribunal Federal durante a votação do pedido de
liminar para a suspensão do processo de cassação aberto contra o deputado e
ex-ministro José Dirceu, no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados.
Segundo o editorial, o presidente do Supremo conduziu os trabalhos "como
se estivesse tocando uma câmara de vereadores interiorana, forçando seus
membros a votar de acordo com os interesses que, por algum motivo, queria preservar".
Foi arrogante, ríspido e preconceituoso com os demais
ministros, "furtando-se a quaisquer considerações de natureza
jurídica".
Que estranhos valores são esses! Onde fica a justiça dos homens, o
discernimento e o respeito pelo direito do outro?
A rotina de escândalos, que culminou com a descoberta do mensalão, escancarou
as inúmeras negociatas entre governos, partidos, empresas públicas e
privadas.
Deputados e senadores, eleitos por nós, nossos representantes no Parlamento,
trocaram sua dignidade e a confiança dos eleitores pela mercantilização da sua
posição política - favores, apadrinhamentos, cargos. Tudo com o fim de garantir
a permanência no poder.
O que mais espanta é que não se constrangem ao assumir a compra de votos e o
caixa 2.
Até declaram que poderiam ter resolvido as dívidas
passadas ou fazer caixa para campanhas futuras com os fornecedores do
Ministério onde atuavam, mas preferiram procurar o tesoureiro do partido.
Assim fez o ex-ministro dos Transportes, Anderson Adauto. Admitiu suas
"malfeitorias" e deixou explícito que esse tipo de crime é recorrente, faz
parte dos usos e costumes. É praticamente uma prerrogativa de um titular de
pasta ministerial.
Diante da profusão de atos ilícitos, já
aceitamos barbaridades como fatos banais.
Estamos mesmo anestesiados!
De onde vieram os milhões do mensalão que circularam por gabinetes, malas e
cuecas país afora?
Da sonegação, do contrabando, da pirataria, do abuso de poder, da conivência,
do desvio, da impunidade, do "deixa pra lá". Da ausência de valores!
Enquanto combatemos as práticas irregulares que afrontam as leis no país, como
explicar que um produto pirateado - um filme em DVD - tenha chegado ao avião do
presidente da República? A naturalidade com que convivemos com a pirataria
mostra nossa flexibilidade em relação ao crime.
Falta seriedade no combate ao mercado informal e aos vícios criminosos que
interferem na economia.
Falta ética na concorrência, eficiência no
gerenciamento das contas públicas, no controle de gastos, na administração de
receitas e despesas.
Essas práticas não combinam com os avanços
democráticos que conquistamos.
Democracia implica em leis funcionais, sem formalismos
jurídicos nem jogo de faz de conta, sem o já conhecido "jeitinho brasileiro".
Não podemos compactuar com a tese de que "sempre
foi assim".
Não podemos minimizar a gravidade dos fatos e das
acusações.
Para onde vão os recordes da arrecadação federal? O Estado criado para gerir e
servir, recolhe milhões em impostos e
não devolve nada à população. Ele mesmo consome os 40% do PIB.
Não
podemos mais permitir os pequenos delitos que geram os grandes delitos.
Quando não exigimos nota fiscal, nos tornamos
cúmplices da ilegalidade que se instaurou no país.
E se sonegamos, não podemos exigir saúde, educação, trabalho, produção,
segurança, direitos básicos do cidadão.
O que resta para os milhões de jovens brasileiros que
acompanham diariamente os escândalos da política pela mídia? Que valores nossos
representantes no Parlamento transmitem a esses jovens ainda em formação,
estudantes ou recém chegados ao mercado de trabalho? Que valores passam à
população do país?
É espantosa a falta de austeridade em relação aos gastos
públicos.
Levantamento do jornal O Estado de São Paulo mostrou que o governo
federal já gastou mais de um
bilhão de reais só com diárias de viagens de servidores públicos do
Executivo.
Nos últimos dois anos, há casos de servidores que receberam até 168 mil reais.
Alguém pode me explicar o motivo de tanta viagem?
Pois esse dinheiro gasto na "farra das diárias" é cinco vezes maior do que o orçamento do
Ministério da Cultura para este ano.
44 vezes maior do que o total
investido no programa Primeiro Emprego.
Isso sem falar nas verbas que são desviadas e nunca chegam ao seu destino.
Perdeu-se o respeito pelo dinheiro público, arrecadado pelos inúmeros e caros
impostos pagos pela população e pelas empresas, fruto do trabalho duro de
milhões de brasileiros.
Não só pagamos impostos, mas ainda pagamos as despesas pelo pagamento desses
impostos e não sabemos exatamente o quanto pagamos.
Há uma grande ausência de princípios na forma de governar, de gerenciar
empresas e entidades e nas atitudes de muitos homens públicos que detêm o poder
político e econômico nesse país.
Um governo, assim como uma empresa ou uma entidade, precisa ter valores e
projetos claros.
O que pensar quando dois senadores da República e um deputado federal ameaçam
"dar uma surra" no presidente do país?
A que ponto chegamos, senhores!
Onde está o decoro parlamentar e a dignidade de quem foi eleito para defender
os interesses da nação?
O que fazer quando o ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil - depois de
receber 326 mil reais do valerioduto
e gastar 70 mil reais na compra de mesas
para um show - envolve-se em outro escândalo: o uso do cartão corporativo do
Banco para pagar despesas com sites pornográficos da internet? Esse
mesmo diretor recebeu um envelope com mais de 300 mil reais e disse que não
conferiu o conteúdo.
Já o presidente do Banco Popular - destinado à prestar serviços bancários para
pessoas de baixa renda - conseguiu gastar mais em publicidade - 24 milhões de
reais - do que em empréstimos ao povo - 20 milhões de reais.
Segundo a Revista Veja de 26 de outubro, não
nos falta polícia.
Temos 322 policiais por grupo de 100
mil habitantes, enquanto que os Estados Unidos tem 283.
Não nos faltam juízes. Temos 7,73
juízes para cada grupo de 100 mil habitantes, enquanto que o Chile tem 3,22 juízes para o mesmo número de
habitantes.
O que nos falta, então?
Menos leis e mais aplicação correta,
ao invés de milhares de leis que se sobrepõem e confundem a todos, propiciando
o adiamento de decisões, postergações, decursos de prazo.
No Brasil, as penas prescrevem e a pessoa é declarada inocente, pois não é
julgada a tempo. No Brasil, vale a lei da impunidade.
Falta eficiência nas investigações, no julgamento dos processos, no
gerenciamento das políticas públicas.
A máquina pública brasileira sofre de incapacidade
gerencial. Os gestores não conseguem gastar com eficiência o pouco dinheiro
que sobra para investimentos.
Em três anos de governo Lula, a folha de pagamento do Legislativo cresceu
53,6%; do Judiciário, 35,5%; do Ministério Público da União, 45,2% e do Executivo,
27,8% - todos acima da inflação acumulada de 24,5% ocorrida nesses três anos.
Fala-se muito na redução de juros, mas pouco nas
despesas do governo. A ministra Dilma precisa saber que também é rudimentar e
indecente a maneira como o governo aumenta suas despesas, o que torna os juros
ainda maiores.
Os investimentos em infra-estrutura e projetos econômicos e sociais dirigidos à
população ficaram abaixo de 1% do PIB
entre 2003 e 2005.
Mais um dos tantos sintomas que comprovam a
ausência de VALORES.
E nós, cidadãos e empresários aqui presentes, como ficamos diante disso?
Já nos perguntamos que Brasil queremos?
Somos responsáveis e temos que sair dessa passividade com urgência.
Nós, empresários, líderes, homens e mulheres de bem, políticos corretos,
trabalhadores que queremos viver em um país digno precisamos de atitude.
É hora de acordar dessa isenção preguiçosa e assumir nossas
responsabilidades.
O
Brasil somos nós.
É preciso superar velhos e confortáveis hábitos que nos conduzem pela mesma
trilha e dizer o que ainda não se disse
e precisa ser dito.
Quando deixamos de sonhar ou de ter esperança, sucumbimos tanto na vida
pessoal, como profissional ou coletiva.
Cabe a nós dar um basta à corrupção e à ineficiência, práticas que só se expandem
em sociedades precárias e fracas.
A utopia está tanto nos grandes movimentos sociais que a história conheceu,
como nos pequenos atos de cada um de nós, que podem mudar o nosso Brasil.
Proponho
uma reflexão profunda e um trabalho incessante pela recuperação dos valores que
aprendemos com nossas famílias.
Vamos expor nossa revolta, nos
transformarmos em verdadeiros agentes que podem redimir este país.
Não podemos deixar que os contra-valores
vençam esta guerra.
O país que queremos para nossos filhos e netos não é este.
Queremos um país que gaste menos e onde todos paguem menos impostos; um país
que aplique bem os recursos arrecadados; que invista em saúde, segurança,
educação, geração de emprego e no bem estar da população.
Um país que não figure mais no 71o. lugar do ranking
da Unesco em educação.
Um país que respeite sua gente!
Vamos levantar a bandeira dos valores que aprendemos, eliminar os
contra-valores, voltar a sentir orgulho, divulgar as boas ações, as boas
práticas, os valores verdadeiros e fazer do Brasil um país digno e justo, que
traga futuro para todos nós.
Chega de tolerância, virtude brasileira hoje tão
permissiva.
Não vamos aceitar pequenos delitos, pequenas infrações, pequenos roubos,
pequenas corrupções e pequenos desvios que insuflam os grandes e são
alimentados pelo tradicional "jeitinho brasileiro", que acha solução para tudo.
Não há meio termo quando a questão é
ética. Ou se é honesto ou não se é honesto.
Como cidadãos, somos agentes da mudança. E a mudança está em dizermos não aos
agentes dos contra-valores.
Confiante na minha capacidade de venda, com a certeza de que vendi o
produto VALOR e encontrei eco em cada um de vocês, finalizo lembrando um artigo
do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro.
"Somos a matéria prima desse país e temos muitas coisas boas, mas nos
falta ainda muito para sermos os homens e mulheres que nosso Brasil
precisa. Esses defeitos, essa ESPERTEZA BRASILEIRA congênita, essa
desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até converter-se em
casos de escândalo, essa falta de
qualidade humana, real e ruim, tem que acabar".
A responsabilidade é de todos nós!
Boa noite!