Lista de prioridades para o Brasil é toda impopular, diz presidente do IDV

26/02/2018
“Do lado do IDV, a grande contribuição é a geração de empregos. Um dos fatores sociais mais importantes do varejo é a inserção do jovem no mercado de trabalho. Agora, o papel do governo ninguém discute: é educação, e passa por reforma previdenciária e equilíbrio de contas. Também passa por eliminar a insistência de alguns governos em ocupar o espaço do setor empresarial, tentando atuar naquilo que não é vocação dele: manter empresas públicas. Já está provado que traz ineficiência e corrupção. O governo tem de descartar esse papel. Tem de exercer o seu papel na gestão de educação, saúde e segurança.”

Antonio Carlos Pipponzi, presidente do IDV, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, quando questionado sobre o que o IDV está fazendo pelo país e o que o próximo presidente precisará fazer.

Leia a entrevista aqui na íntegra

Folha de S. Paulo, 25 de fevereiro de 2018
Texto: Joana Cunha
São Paulo

Folha – O governo só está dourando a pílula com as 15 ações recém-anunciadas para melhorar a economia ou elas são viáveis?
Antonio Carlos Pipponzi – Os pontos são variados. Uma parte não é nova. Mas algumas coisas são muito genéricas também.

Alguma preocupa o setor?
Tem a questão do PIS/Cofins. Esse é um tema que, se você não participar, vira aumento de imposto na certa. Luz vermelha. Vamos entender isso e participar. Não é chegar lá e bater na mesa. Mas é entender o que se quer fazer. [Quando o anúncio foi feito], eu recebi mensagens de associados do IDV preocupados. Isso vai ser equilibrado? Por outro lado, vemos com bons olhos o cadastro positivo.

O sr. concorda com a entrada de empresários na política?
Vou repetir uma frase que ouvi num encontro em que estava o João Doria, e ele tinha acabado de se eleger. Um empresário disse a ele: “Você tem que ser bom administrador e bom político. Administração você delega. Política, não”. No momento em que o país precisa de sintonia entre Executivo e Legislativo, e não tem um Congresso ideal, um grande político faria a diferença.
De onde vamos tirar um bom político agora? Não sei. Mas tem de ter alguém com visão de país. Até porque não tem um projeto na lista de prioridades do Brasil que não seja impopular. A reforma tributária, por exemplo, mexe no calo de todo o mundo. O país precisa de remédios amargos.

Na sua opinião, não é a hora de empresário na política?
Não. Não excluo. Não vamos radicalizar. Eu diria que não se pode desprezar a variável política. Com todas as críticas que se possa fazer ao Temer, não dá para imaginar que ele escolheu a Cristiane Brasil e falou: “Essa é a pessoa mais bem indicada para estar no Ministério do Trabalho”. Aquilo realmente era uma troca para aprovar a reforma previdenciária. E o Temer quer entrar para a história como o presidente que aprovou reformas importantes. Isso é o exercício da política.

Mas como ele vai entrar para a história?
Com essa base que ele tinha, ele conseguiu promover a reforma trabalhista, que foi importante. Teve a marca de recolocar a economia na direção certa. Ninguém poderia esperar que uma taxa de inflação de 10% baixasse para perto de zero, nem que uma taxa de juros de 11% ou 12% fosse a 6%. Nem que a economia retomasse, embora em níveis baixos, em tão pouco tempo. Isso tudo é um mérito da equipe econômica. E foi o Temer que colocou a equipe econômica lá.

Eu jamais vou aprovar os métodos da política de hoje. Jamais vou aprovar a base que o Temer tem hoje. Mas esse é o sistema, e alguém tem de transformar isso. Mas não dá para transformar o sistema se não tiver uma experiência política. É difícil. Por isso, não dá para a gente simplesmente pensar que o país precisa de um grande administrador e excluir o político.

Eu gostaria de ter alguém capaz de reunir as duas coisas. Poderia ser um Olavo Setúbal. Ele era alguém que tinha um trânsito político e era um empresário dos mais admiráveis.

Quem seria um candidato razoável hoje na sua opinião?
Falando por mim e não pelo IDV, uma opinião pessoal, um nome que tem essas duas características é Pedro Parente [presidente da Petrobras]. É gestor e político. Não é necessariamente o único, mas é uma pessoa madura que tem esse equilíbrio e essa experiência. Mas não estou falando como IDV. O IDV não apoia candidatos. Ele apoia propostas.

Quais foram os efeitos da reforma trabalhista para o varejo? Fez diferença para os negócios no setor?
Hoje as empresas sentem uma segurança maior porque contam com outros formatos de contratação, como o trabalho intermitente, o parcial. Mas não adianta ter expectativa de que isso se implementa de uma hora para a outra. Isso traz uma melhora para o ambiente de negócios. O risco ficou menor. Dá muito mais clareza para o empresário contratar. Formaliza o mercado de trabalho, diminui as reclamações trabalhistas.

O Magazine Luiza já disse que não se expande para o Rio por causa da violência. Que tipo de impacto o varejo todo vem sentindo no Estado?
A gente tem de fazer um desabafo. Passamos situações complicadas no Rio de Janeiro, no Espírito Santo, na Bahia e no Rio Grande do Norte, como fechar as lojas mais cedo. Sofremos com as greves de polícia. O que acontece quando o Estado não controla a segurança? O comércio tem que fechar as portas.
Hoje, se você vai expandir no Rio, pensa bem: ‘Eu estou seguro para transferir gente para lá?’. Não é simples.

Além disso, o custo que as empresas têm para monitorar seus centros de distribuição, lojas e o transporte é alto. E quem paga esse custo é o consumidor. Na empresa de varejo, uma das maiores contas é a segurança. Isso se reflete em aumento de preços.

O que o próximo presidente precisará fazer pelo país? E o que o IDV está fazendo?
Do lado do IDV, a grande contribuição é a geração de empregos. Um dos fatores sociais mais importantes do varejo é a inserção do jovem no mercado de trabalho. Agora, o papel do governo ninguém discute: é educação, e passa por reforma previdenciária e equilíbrio de contas.

Também passa por eliminar a insistência de alguns governos em ocupar o espaço do setor empresarial, tentando atuar naquilo que não é vocação dele: manter empresas públicas. Já está provado que traz ineficiência e corrupção. O governo tem de descartar esse papel. Tem de exercer o seu papel na gestão de educação, saúde e segurança.

Há espaço para a discussão de reformas no cenário eleitoral que vislumbramos?
Isso envolve uma transformação da política, das pessoas que estão hoje no Legislativo. O grau de corrupção e a falta de interesse são altos lá.

Outro dia, a gente esteve no Congresso para defender a reforma da Previdência. Eu estive com três ou quatro lideranças que me deixaram assustado quando disseram o seguinte: “Sabemos que isso é bom para o Brasil, mas vai me prejudicar perante o meu eleitorado”. Eu quase me atraquei com eles.

Temer não foi capaz de fazer a reforma. Quem vai fazer?
Um governo que se eleja com legitimidade, que tenha a força do voto. Um país dividido como hoje complica muito. O que se espera é que surja uma liderança com aceitação popular e força no Congresso para promover mudanças. Todo o mundo sabe que reformas na educação, na Previdência, em questões trabalhistas, na administração pública e na política são complicadas. Nada disso é popular. Por isso é importante ter um presidente eleito que possa chegar ao Congresso e ter força de aprovar esses projetos. Tem que ter credibilidade. O governo Temer não conseguiu atingir um grau de popularidade minimamente razoável. O grupo do MDB que sustenta o Temer no governo não tem nenhuma credibilidade da sociedade.

​Agora, a população tem de entender que isso não vai mudar em uma eleição. É um processo. Imagine, a gente já poderia ter uma reforma tributária feita desde o governo Fernando Henrique Cardoso. Já se passaram 16 anos. É o tempo que um especialista tributário avalia que daria para fazer toda a travessia para a eliminação de subsídios e outras distorções nessa área. Você pode promover um choque educacional em menos tempo do que isso.

RAIO-X

Cargos: Presidente do conselho de administração da Raia Drogasil; presidente do IDV (Instituto para Desenvolvimento do Varejo); vice do conselho do Fundo Patrimonial Amigos da Poli

Formação: Graduado em engenharia civil pela Poli-USP e em administração de empresas pela Eaesp FGV

Trajetória: Na Raia S.A., foi diretor administrativo e financeiro, diretor-superintendente e diretor-presidente

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