Cartões querem alternativa a parcelamento sem juros

05/02/2018

O conselheiro do IDV Jorge Gonçalves concedeu entrevista a Folha de S. Paulo e abordou o tema “parcelamento sem juros dos cartões de crédito”. Confira a reportagem:

Para varejo, fim da modalidade pode reduzir consumo em até R$ 90 bilhões

folha.uol.com.br

Danielle Brant
Daniel Camargos
São Paulo

As empresas que administram cartões de crédito iniciaram uma ofensiva para tentar, aos poucos, asfixiar uma das mais conhecidas “jabuticabas” brasileiras, a compra parcelada sem juros.

O objetivo é criar uma alternativa que distribua melhor os custos da inadimplência com outros participantes do mercado, como bancos e os próprios lojistas —que devem ser justamente o elo fraco da equação, temem associações comerciais.

Hoje, as lojas aceitam que o consumidor parcele a compra no cartão de crédito e recebem das administradoras, que ficam com o risco de inadimplência —ou seja, do consumidor não pagar a fatura—, 30 dias depois.

Ainda não há um modelo de a nova modalidade de crédito funcionaria. Mas o objetivo, diz a Abecs (associação da empresas de cartões de crédito), não é eliminar totalmente o parcelado sem juros.

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O IDV (Instituto para o Desenvolvimento do Varejo), que participou de reuniões envolvendo a Abecs e o Banco Central para discutir as mudanças, confirma que foi apresentada uma alternativa ao parcelamento sem taxas, mas sem a intenção de acabar com a modalidade mais popular do comércio.

A proposta seria uma espécie de crediário em que seria possível parcelar as compras e que o lojista passasse a receber o pagamento em cinco dias.

Por trás da mudança estaria a intenção das emissoras de cartões de compartilhar o risco de inadimplência do cliente com bancos e lojistas, diz Juliana Inhasz, professora de finanças do Insper.

“As administradoras amargaram prejuízo com o aumento da inadimplência. A ideia é tentar passar um pouco desse custo para os bancos”, diz.

Contra

Para representantes do varejo, a alteração pode prejudicar o setor. “Achamos que simplesmente eliminar o parcelado sem juros pode trazer reflexos no consumo, tornar mais caro o crédito ao consumidor. A economia está melhorando, não podemos ter medidas que possam onerar o consumo”, diz Jorge Gonçalves, conselheiro do IDV.

Além disso, afirma, mudar o sistema seria complexo, porque haveria reflexos para a bandeira do cartão, para o emissor, e para o varejista.

“O dinheiro vem do varejo. O cartão analisa o crédito e garante o recebimento dos lojistas, mas a gente entende que o custo do dinheiro que financia o cliente é do próprio cliente”, afirma.

A Abipag, que representa as instituições de pagamento, estima que uma alteração do tipo na estrutura do sistema pode ter impacto de até R$ 90 bilhões, medido pela redução do consumo.

O cálculo considera que os consumidores deixarão de consumir para quitar os juros do crediário. Para Augusto Lins, presidente da associação, o parcelamento sem juros é a melhor forma de estimular o consumo.

O economista Fábio Pina, da FecomercioSP (federação do comércio de SP), diz que a entidade não foi convidada para a discussão, mas se posiciona contra a mudança.

“O parcelamento no cartão representa uma fatia importante das vendas e é usada como estratégia”, avalia.

Caso a medida seja implementada, a federação defende que o recebimento das vendas pelo lojista seja realizado no dia seguinte à operação,e não cinco dias, como sugeriu a Abecs ao BC

Polêmico

O conceito de parcelamento sem juros gera controvérsia. Especialistas dizem que, na verdade, não há essa figura de concessão de crédito sem a cobrança de uma taxa.

“Foi uma evolução do cheque pré-datado. O que acontece é o uso de um ‘apelo psicológico’ para que o consumidor pense que não está pagando os juros”, afirma César Caselani, professor de finanças da FGV (Fundação Getulio Vargas).

Juliana Inhasz, do Insper, tem avaliação parecida. “É muito mais um artifício para conseguir aumentar a venda e convencer as pessoas de concretizar a compra do que efetivamente uma verdade”, diz. “Esse juro está embutido e, quando tem negociação para pagamento à vista, costuma haver um desconto.”

A modalidade acaba ajudando no fluxo de caixa dos lojistas, diz Inhasz. “Como eles negociam prazos de pagamento conforme compram, vender a prazo não é ruim. Garantem a venda e o fluxo para pagar fornecedor nos outros meses”, afirma.

Mas a mudança pode ter efeito positivo para o consumidor, avalia Caselani, da FGV. “Se foi implantada, é preciso ficar clara a diferença entre o valor a vista e parcelado. Seria ótimo para educação financeira.”

Prazos maiores

A Abecs (associação das empresas de cartões) diz que apresentou estudos sobre um novo produto de financiamento ao consumo e que o Banco Central tem consultado o setor em busca de informações para subsidiar uma futura regulação que possa reduzir o custo do crédito “com o cuidado de não afetar o equilíbrio do sistema”.

“Esse novo produto possibilitaria prazos maiores de financiamento ao consumidor por meio do cartão e seria uma alternativa especialmente para os comércios menores, que não contam com capital de giro”, indicou, sem dar mais detalhes.

A Abecs negou ter proposto eliminar o parcelado sem juros. “Essa informação não tem qualquer fundamento.”

O BC não quis comentar. A Febraban (federação dos bancos), as principais instituições financeiras —Banco do Brasil, Itaú, Bradesco e as bandeiras Visa e Mastercard— encaminharam a manifestação sobre o assunto à Abecs.

Em coletiva de divulgação de resultados, porém, executivos abordaram o tema.

Carlos Firetti, diretor de relações com o mercado do Bradesco, disse ser prematuro traçar cenários sobre a mudança. “O objetivo não é acabar com o parcelado sem juros, e sim oferecer alternativas aos consumidores, incentivar o parcelado com juros”.

Segundo ele, não há nada concreto e “não existe a discussão” de acabar com o parcelamento sem juros.

Alexandre Glüher, diretor-executivo do banco e de relações com investidores, diz que a modalidade tem papel “extremamente importante” para o comércio.

“Se acabasse, traria um desequilíbrio que seria compensado com alguma outra possibilidade. Os agentes estão tendo a serenidade para encontrar o melhor modelo.”

Para Sérgio Rial, presidente do Santander Brasil, a desconstrução do modelo deve ser evitada no curto prazo, já que isso poderia ter “implicações que talvez não tenham sido totalmente mapeadas”.

“Não tem nada de errado no parcelado por si só. O que não está claro são os juros embutidos neste parcelado, a total transparência que passa no Brasil por juros, indexações e também impostos”, afirmou Rial.

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