Conjuntura Crédito, Juros e Inadimplência

CCV

23/04/2009 

Abril 2009 

Margem para a redução de juros 

A pesquisa de crédito para março desse ano, divulgada hoje pelo Banco Central, traz um resultado extremamente positivo para a perspectiva de redução futura da taxa de juros no crédito para a pessoa física e ao consumidor: a taxa de inadimplência, calculada pelo Banco Central como a relação entre os financiamentos em atraso por prazo superior a 90 dias e o total de financiamentos, teve um pequeno recuo nas linhas de empréstimos para as famílias. Como cabe sublinhar, a inadimplência das pessoas físicas vinha aumentando desde setembro do ano passado, quando alcançou 7,3%. Desde então passou para 7,6% em outubro, 7,8% no mês seguinte, 8,0% em dezembro, 8,2% no primeiro mês de 2009, 8,4% em fevereiro para chegar a 8,3% no mês de março.

A inadimplência crescente vinha sendo apontada como o fator destacado que levava ao aumento muito significativo das taxas de juros do crédito e ao encurtamento dos prazos de financiamentos. Maior custo do crédito e menores prazos para pagamento das dívidas bancárias implicam em desincentivo do consumo das famílias, menores vendas e resultados mais fracos do varejo. Pois bem, com os mais recentes resultados para a inadimplência, abre-se a perspectiva de que as taxas de juros que já vêm caindo modestamente nos últimos meses, venham a cair mais acentuadamente nos próximos. Em se concretizando, isso contribuirá para um desempenho mais favorável do comércio varejista. A execução de políticas governamentais para incentivar a redução dos spreads bancários e conseqüente para a queda da taxa de juros na ponta final do crédito, nestas condições, poderá ter uma eficácia maior.

O volume global de crédito bancário no país cresceu 1% em março sobre fevereiro, alcançando R$ 1,24 trilhão ou o correspondente a 42,5% do PIB (35,5% do PIB em março de 2008). A atividade comercial, entretanto, continua sendo a que mais sente os efeitos adversos da restrição do crédito que teve início com o agravamento da situação econômica internacional em setembro do ano passado. Em março último, o crédito para o comércio aumentou 0,6% (R$ 119,50 bilhões), mas no primeiro trimestre acumula queda de 4,2%. Com crédito escasso e caro, as empresas comerciais têm dificuldades em renovar estoques e em oferecer para a clientela condições mais favoráveis de pagamento. Isso justifica ações do governo em constituir linhas de financiamento para minimizar as conseqüências negativas da retração do crédito sobre o comércio.

Outros Resultados

Volume de Crédito.
O total de crédito, tanto de recursos livres quanto de recursos direcionados, disponibilizados pelo setor financeiro no mês de março foi de R$ 1.241,1 bilhões, o que representou uma variação real no ano de 18,3%, a menor expansão verificada desde julho de 2007 (17,8%). O crédito ao setor privado totalizou R$ 1.213 bilhões, assinalando um aumento real de 18,0% em comparação ao mesmo mês de 2008. Segundo o Banco Central, esse resultado deveu-se à expansão das carteiras de pessoas físicas e maior demanda de recursos por parte dos segmentos de outros serviços e habitação. O volume de recursos ao setor habitacional manteve-se elevado devido aos financiamentos com recursos da caderneta de poupança e FGTS, registrando alta real de 32,6%, acumulando em março R$ 67,8 bilhões. O volume total de crédito destinado ao comércio, por sua vez, foi de R$ 119,5 bilhões (com variação real de 11,0% frente março de 2008). O crédito rural assinalou expansão real de apenas 9,7% frente ao mesmo mês de 2008 e registrando valor de R$ 106,9 bilhões.

O volume de crédito com recursos direcionados atingiu R$ 366,7 bilhões, expandindo-se, já descontados os efeitos da inflação, 20,7% frente a março de 2008. Esse desempenho foi influenciado pelas operações do BNDES (R$ 214,8 bilhões e aumento real de 21,4%), assim como pelo crédito habitacional (R$ 64,1 bilhões, com crescimento real de 32,7%). Já o volume de crédito com recursos livres alcançou R$ 874,4 bilhões, com elevação real de 17,4%. Os empréstimos destinados às pessoas físicas somaram R$ 408,7 bilhões, com acréscimo real de 14,5%. Os financiamentos às pessoas jurídicas cresceram, descontada a inflação do período, 20,0% no mês, ao totalizar R$ 465,7 bilhões, traduzindo o incremento de 24,3% nas carteiras com recursos domésticos, visto que os recursos externos obtiveram crescimento real de apenas 4,3% (em fevereiro esse crescimento havia sido de 16,2%).

Taxa de Juros.
Em março, a taxa de juros total incidida nas operações de crédito com recursos livres foi de 39,2% a.a., o que representou um decréscimo de 2,1 p.p. em comparação a fevereiro, e uma alta de 1,6 p.p. frente ao mesmo mês do ano anterior. Já a taxa de juros incidida sobre as operações de pessoas jurídicas, que fechou o mês em 28,9% a.a., registrou uma diminuição de 2,0 p.p. frente ao mês imediatamente anterior e aumento de 2,4 p.p. frente a março do ano passado. Por outro lado, a taxa de juros sobre pessoa física, ao ficar em 50,1% a.a., mantendo a tendência geral, recuou 2,5 p.p. em comparação a fevereiro do presente ano e obteve alta de 2,3 p.p. em comparação a março de 2008.

Dentre as modalidades de crédito para a pessoa física, destacam-se o crédito pessoal e aquisição de bens - veículos. O primeiro, pois assinalou o maior recuo frente a fevereiro (3,7 p.p. ficando em 50,8% a.a.) e obteve pequeno crescimento de 0,3 p.p. frente a março de 2008. A taxa de juros para a aquisição de veículos também registrou diminuição em relação ao mês anterior (2,1 p.p.), assim como em comparação a março do ano passado (0,4 p.p.), fechando o mês em 29,7% a.a.. A modalidade cheque especial, por outro lado, apresentou, na passagem fevereiro/março, o único acréscimo (2,4 p.p.) ficando em 169,1% a.a., além de ter sido observado um crescimento expressivo de 19,3 p.p.na comparação com março de 2008.

O spread bancário, definido como a diferença entre a taxa média de juros que as instituições financeiras pagam ao captar recursos e aquela que recebem ao aplicá-los, registrou queda na passagem de fevereiro - março de 1,2 p.p., porém assinalou crescimento de 3,1 p.p. na comparação mensal (mês/mesmo mês do ano anterior), ao fechar o mês em 28,5 p.p.. A taxa de captação total, que representa o custo de obtenção dos recursos financeiros para os bancos comerciais, foi de 10,7% a.a., o que representou uma queda de 0,9 p.p. contra fevereiro e de 1,5 p.p. na comparação mensal.

Inadimplência. A inadimplência, considerando os atrasos superiores a 90 dias, assinalou alta em março de 0,2 p.p. contra fevereiro, chegando a 5,0%. Na comparação março 09/março 08, a ampliação foi de 0,9 p.p. O maior responsável por esse comportamento foi a inadimplência no segmento de pessoas jurídica que cresceu 0,3 p.p. frente a fevereiro e 0,8 p.p. frente a março do ano passado. O segmento de pessoa física, por sua vez, registrou relativa estabilidade da inadimplência em março frente a fevereiro (-0,1 p.p.), enquanto em relação a março de 2008 cresceu 1,4 p.p.

 


 

Saldo de Operações de Crédito - Taxa de Crescimento
Real em Relação ao Mesmo Mês do Ano Anterior - %

 

 

Taxa de Juros nas Operações de Crédito com Recursos Livres - %

 

Prazo Médio Dias Corridos nas Operações de Crédito com Recursos Livres - %

 

Inadimplência - Pessoa Física - % (Percentual do saldo em atraso superior a noventa dias)


 

Fonte: Banco Central do Brasil - BCB

 

 

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