Conjuntura Crédito, Juros e Inadimplência

CCV

26/03/2009 

Março 2009 

Crédito escasso e caro 

A pesquisa sobre crédito no Brasil divulgada hoje pelo Banco Central com referência para o mês de fevereiro, mostra que o crédito continua apertado e caro tanto para as empresas quanto para os consumidores. Com relação a janeiro, a variação do saldo dos empréstimos bancários foi de apenas 0,1%. Em valor, o crédito atingiu R$ 1.230 bilhões, o equivalente a 41,6% do PIB. Cabe notar que esta proporção era de 41,3% em dezembro de 2008, o que mostra sua pequena evolução desde então.

Os dados do Banco Central revelam ainda que o setor de comércio (reunindo comércio varejista e atacadista) é o que mais tem sofrido com a restrição do crédito. Em fevereiro com relação ao mês anterior, houve queda de 2,9% do saldo dos financiamentos para esse setor. Nos dois meses iniciais do ano a queda sobe para 4,4%. Essa menor capacidade de financiamento por parte do setor acaba restringindo a sua própria capacidade de financiar o consumidor, fator que concorre para redução das vendas.

No financiamento que os bancos concedem com recursos livres para as pessoas físicas, houve uma variação de +1,1%, em grande parte pela apropriação nos valores financiados dos juros muito elevados que prevalecem nos empréstimos. As maiores evoluções do crédito para as famílias ocorreram nas linhas mais caras, como no caso de cheque especial (+2,1%) e cartão de crédito (+2,4%). As linhas de financiamento para a aquisição de bens ou praticamente não tiveram evolução (caso do financiamento de veículos, +0,1%) ou caíram, como no caso de financiamento de outros bens, com queda de 2,1%.

É muito importante averiguar o comportamento da taxa de juros, assim como da inadimplência do crédito. Esta última evoluiu no mês de fevereiro, porém em uma dimensão relativamente modesta, significando isto que as empresas e consumidores continuam honrando seus compromissos. Para as pessoas jurídicas, a inadimplência passou de 2,0% do total de crédito em janeiro desse ano para 2,3% em fevereiro. No caso de pessoas físicas, a inadimplência subiu apenas 0,1 ponto percentual, passando de 8,2% para 8,3%. Portanto, há de fato um aumento na inadimplência do crédito no país, porém não em magnitude que justifique taxas de juros tão elevadas quanto as que vêm sendo praticadas.

As taxas de juros médias caíram em fevereiro, porém, em proporção muito aquém do que seria necessário para tão somente repor as taxas do crédito aos níveis mais favoráveis do passado recente. Para as pessoas jurídicas, praticamente não houve alteração, com a taxa média passando de 31% ao ano em janeiro para 30,8% ao ano em fevereiro. Cabe sublinhar que, nesse caso, a taxa correspondente a fevereiro do ano passado era de 24,8% ao ano. No caso dos financiamentos para pessoas físicas a taxa cobrada em fevereiro, de 52,7% ao ano, foi inferior à taxa de janeiro, 55,1% ao ano, mas, ainda assim, situa-se em nível substancialmente superior com relação à mais baixa taxa dos últimos tempos, registrada em dezembro de 2007, 43,9% ao ano. Novas ações de governo no sentido de ampliar o acesso ao crédito e barateá-lo seriam relevantes como meio de resposta às dificuldades que a situação internacional vem criando para a economia brasileira.

Resultados Gerais. O volume de crédito total, disponibilizado na forma de recursos livres e direcionados pelo sistema financeiro foi de R$ 1.230,9 bilhões no mês de fevereiro. Esse montante representou uma alta real de 21,1% em comparação a fevereiro de 2008, a menor desde setembro de 2007, quando cresceu 20,3%. A maior expansão do volume de crédito por segmento frente fevereiro de 2008, foi observada no crédito a pessoa jurídica (crescimento real de 24,9%, atingindo R$ 291,4 bilhões). Por sua vez, o crédito à pessoa física atingiu R$ 277,5 bilhões em fevereiro, registrando alta real de 4,8%. Segundo o Banco Central, esta evolução positiva deveu-se a fatores sazonais, devido a despesas típicas do início do ano, entretanto a variação real representa a menor taxa de crescimento do crédito neste segmento novembro de 2003 (2,2%).

Setorialmente, a indústria recebeu de total de crédito no mês em questão R$ 299,5 bilhões. Quando comparado ao mesmo mês do ano anterior, verifica-se elevação real de 29,2%, que apesar de apresentar uma leve desaceleração desde dezembro de 2008, ainda mantém-se em um patamar elevado.  Ao comércio foram destinados R$ 119,1 bilhões, o que representou uma variação real anual de 13,7%, confirmando a queda do ritmo do crédito a este setor, iniciada em outubro do ano anterior.

Taxa de Juros. No segundo mês de 2009, a taxa de juros média incidida nas operações com recursos livres no sistema de crédito nacional foi de 41,3% a.a., um recuo de 1,1 p.p. com relação ao mês anterior e acréscimo de 3,9 p.p. frente a fevereiro de 2008. O spread bancário nesse mesmo mês ficou em 29,7%, uma queda de 0,8 p.p. contra janeiro e aumento de 3,7 p.p. com respeito ao spread equivalente ao mesmo mês do ano passado. Finalmente, a queda da taxa de captação foi o que acabou puxando para baixo a taxa de juros de fevereiro: nesse mês, a variação foi negativa em 0,3 p.p. contra janeiro e positiva em apenas 0,2 p.p. em relação a fevereiro de 2008.

A taxa cobrada nos empréstimos a pessoas físicas chegou a 52,7% a.a., após cair 2,4 p.p. em relação a janeiro. No mesmo sentido, a taxa de juros sobre os empréstimos a pessoas jurídicas chegou a 30,8% a.a., decréscimo de 0,2 p.p. frente a janeiro. Apesar dos recuos em relação ao mês anterior, as taxas de juros aplicadas em fevereiro, quando comparadas a fevereiro de 2008, apresentaram aumentos, de 3,7 p.p. para pessoa física e 6,0 p.p. para pessoa jurídica. Quanto às modalidades de crédito para pessoa física, todas as taxas apresentaram retração. O cheque especial foi a modalidade que registrou maior queda (5,3 p.p.), seguida de aquisição de bens - veículos (-2,9 p.p.), fechando o mês em 31,8%, aquisição de outros bens (-2,1 p.p.), registrando 64,0% ao ano e crédito pessoal (-2,0 p.p.), assinalando valor de 54,5% ao ano.

O spread bancário sobre as operações a pessoa física situou-se em 41,5%, caindo 2,1 p.p. em relação ao mês anterior, mas crescendo 4,6 p.p. em comparação a fevereiro do ano passado. Em relação a pessoa jurídica, o spread bancário teve aumento de apenas 0,1 p.p. com relação ao mês anterior e de 4,8 p.p. frente ao mesmo mês de 2008, a fechar o mês de fevereiro com uma taxa igual a 18,9%.

Inadimplência. A inadimplência relativa ao crédito referencial em fevereiro de 2009, considerando os atrasos maiores que 90 dias, foi de 4,8%, o que acusou um acréscimo em relação ao mês anterior de 0,2 p.p. e de 0,4 p.p. em relação a fevereiro passado. A inadimplência relativa a pessoa jurídica foi de 2,3%, aumentando 0,3 p.p. frente ao mês anterior, enquanto que a inadimplência relativa a pessoa física foi de 8,3%, apresentando alta de 0,1 p.p.

 


 

Saldo de Operações de Crédito - Taxa de Crescimento
Real em Relação ao Mesmo Mês do Ano Anterior - %

 

 

Taxa de Juros nas Operações de Crédito com Recursos Livres - %

 

Prazo Médio Dias Corridos nas Operações de Crédito com Recursos Livres - %

 

Inadimplência - Pessoa Física - % (Percentual do saldo em atraso superior a noventa dias)


 

Fonte: Banco Central do Brasil - BCB

 

 

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